Há um paradoxo curioso na minha especialidade: como neurocirurgião de coluna, a maior parte do meu trabalho é convencer pacientes de que não precisam de cirurgia. Eles chegam ao consultório com um laudo de ressonância e olhos arregalados — "hérnia discal L4-L5 com compressão radicular" — e esperam uma indicação cirúrgica. Na maioria das vezes, saem com um plano conservador e a notícia de que o próprio corpo é capaz de resolver o problema.
Isso não é exceção. É a regra. Cerca de 90 a 97% das hérnias de disco lombares e cervicais respondem ao tratamento conservador sem necessidade de intervenção cirúrgica. O problema é que poucos pacientes chegam até um neurocirurgião com essa informação — e quando chegam, já passaram por meses de dor e medo desnecessários.
Este artigo explica, com a precisão de quem opera coluna há anos e com a clareza de quem quer ser entendido por qualquer pessoa, quando a hérnia de disco pode e deve ser tratada sem cirurgia — e quais são os sinais reais que indicam que a operação é inevitável.
O que é hérnia de disco — e por que ela dói
O disco intervertebral é uma estrutura em forma de anel que fica entre duas vértebras adjacentes. É composto por um anel externo fibroso e resistente (ânulo fibroso) e um núcleo gelatinoso interno (núcleo pulposo), rico em água e proteoglicanos. Sua função é absorver impacto e permitir mobilidade entre as vértebras.
A hérnia de disco ocorre quando o núcleo pulposo se desloca para fora da sua posição habitual, geralmente por uma ruptura ou enfraquecimento do ânulo fibroso. Esse material deslocado pode comprimir as raízes nervosas que saem da medula espinhal — e é essa compressão que gera dor, formigamento e fraqueza nos membros.
Lombar (L4-L5, L5-S1)
A mais comum. Causa lombociatalgia: dor que desce pela nádega e perna, frequentemente até o pé.
Cervical (C5-C6, C6-C7)
Causa cervicobraquialgia: dor e formigamento que desce pelo pescoço, ombro e braço.
Torácica
A mais rara. Pode causar dor em faixa no tórax ou, nos casos graves, compressão medular.
A intensidade da dor não é proporcional ao tamanho da hérnia. Pequenas hérnias em posições críticas podem causar dor intensa, enquanto hérnias volumosas encontradas incidentalmente em exames podem ser completamente assintomáticas. O tamanho da hérnia no exame de imagem não deve ser usado como único critério para definir tratamento.
A hérnia de disco pode desaparecer sozinha?
Sim — e esse é o dado científico mais subestimado na conversa clínica sobre hérnia de disco. O fenômeno se chama reabsorção espontânea, e acontece porque o núcleo pulposo herniado, ao entrar em contato com o ambiente vascular do canal espinhal, é progressivamente fagocitado pelo sistema imunológico como se fosse um corpo estranho.
O que a ciência mostra
Uma meta-análise publicada no American Journal of Neuroradiology (2017), com mais de 1.000 pacientes acompanhados por imagem seriada, demonstrou que hérnias extrusas e sequestradas — ou seja, as mais volumosas, com material que rompeu o ligamento posterior — têm a maior taxa de reabsorção espontânea: até 96% dos casos apresentaram redução significativa do volume herniado em 1 a 2 anos. Hérnias menores (abaulamentos, protrusões contidas) reabsorvem menos, pois o contato com o sistema vascular é menor.
Em termos práticos: uma hérnia que "parece grave" no exame de imagem frequentemente tem o melhor prognóstico sem cirurgia, porque o próprio organismo a elimina. Isso muda completamente a equação quando o paciente tem dor intensa mas sem déficit neurológico progressivo — nesse cenário, a estratégia conservadora com controle de dor é frequentemente a mais inteligente.
Quando o tratamento conservador funciona
O perfil do paciente que responde bem ao tratamento sem cirurgia é o mais comum no consultório: dor lombar ou cervical com irradiação para membro, formigamento, sensação de choque elétrico — mas sem perda de força muscular progressiva, sem perda de controle esfincteriano e sem alteração grave de sensibilidade. Esses pacientes têm o tempo e a biologia a favor.
O tratamento conservador bem conduzido envolve três pilares simultâneos:
1. Controle da dor e da inflamação
Anti-inflamatórios não esteroidais (ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco) e corticoides orais em ciclos curtos reduzem a inflamação periradicular que amplifica a dor. Analgésicos (dipirona, tramadol nos casos mais intensos) e relaxantes musculares complementam o controle da fase aguda. O objetivo desta etapa é criar uma janela de alívio que permita ao paciente iniciar a reabilitação.
2. Fisioterapia e reabilitação ativa
Esta é a etapa mais importante e a mais frequentemente mal feita. Fisioterapia para hérnia de disco não é apenas calor e ultrassom passivos — é fortalecimento progressivo do corsete muscular profundo (multífido e transverso do abdômen), estabilização lombar e, gradualmente, retorno à atividade funcional plena. Pilates clínico, método McKenzie e RPG têm bom respaldo científico. A meta é tornar a coluna independente da hérnia — quando os músculos protegem adequadamente, a compressão radicular diminui mesmo com a hérnia presente.
3. Educação e mudança de comportamento
O paciente que entende o que está acontecendo na sua coluna se recupera mais rápido. Saber que a dor vai diminuir, que a hérnia tende a regredir e que o movimento controlado é seguro — e até necessário — reduz o componente de catastrofização que amplifica a percepção dolorosa. A chamada Educação em Neurociência da Dor (Pain Neuroscience Education) tem evidência crescente de melhora de desfechos clínicos.
Tem hérnia de disco e quer saber qual é o melhor caminho para o seu caso?
Agendar avaliaçãoInfiltração epidural: a ponte entre a dor e a recuperação
Quando o tratamento medicamentoso oral não é suficiente para controlar a dor na fase aguda — o que é comum nos casos com compressão radicular intensa — utilizo a infiltração epidural de corticoide como ferramenta de transição. Ela não cura a hérnia, mas deposita anti-inflamatório diretamente no local da compressão, reduzindo o edema periradicular de forma muito mais eficaz do que o medicamento oral.
O procedimento é feito com orientação por fluoroscopia, com duração de 20 a 30 minutos. O alívio costuma iniciar em 48 a 72 horas e pode durar de semanas a meses — tempo suficiente para que o paciente avance na fisioterapia e para que o processo de reabsorção espontânea ocorra.
Tipos de infiltração que utilizo
Infiltração epidural lombar: depósito de corticoide no espaço epidural, próximo à raiz comprometida. Indicada nas radiculopatias lombares com ciática intensa. Infiltração foraminal: mais direcionada — o medicamento é depositado exatamente no forame por onde a raiz está sendo comprimida. Maior precisão, útil tanto na coluna lombar quanto na cervical. Bloqueio facetário: indicado quando a dor tem componente predominantemente articular (síndrome facetária associada).
Medicina Regenerativa: o papel crescente do BMAC no disco intervertebral
Nos últimos anos, uma abordagem começou a ocupar um espaço crescente entre a infiltração convencional e a cirurgia: o uso de aspirado concentrado de medula óssea — conhecido pela sigla BMAC, do inglês Bone Marrow Aspirate Concentrate. Diferente da infiltração de corticoide, que age sobre a inflamação, o BMAC tem um objetivo mais ambicioso: estimular a regeneração do próprio disco intervertebral.
O procedimento consiste em coletar uma pequena quantidade de medula óssea — geralmente da crista ilíaca posterior, por punção minimamente invasiva — e concentrá-la por centrifugação. O produto final é rico em células-tronco mesenquimais (MSCs), fatores de crescimento (TGF-β, BMP-2, IGF-1, PDGF, VEGF) e mediadores anti-inflamatórios. Esse concentrado é então injetado intradiscalmente, guiado por fluoroscopia, no disco degenerado ou herniado.
Como o BMAC age no disco
O disco intervertebral tem capacidade regenerativa muito limitada na vida adulta, principalmente por ser avascular — sem suprimento sanguíneo direto, o acesso de células reparadoras é mínimo. O BMAC tenta contornar essa limitação levando diretamente ao disco os elementos que ele não recebe naturalmente:
- Células-tronco mesenquimais: podem se diferenciar em células semelhantes às do núcleo pulposo, repopulando o disco com tecido funcional
- Fatores de crescimento: estimulam a síntese de proteoglicanos e colágeno tipo II — os principais componentes da matriz discal — contrariando o processo degenerativo
- Sinalização parácrina: mesmo sem diferenciação celular, as MSCs secretam moléculas anti-inflamatórias que reduzem IL-1β, TNF-α e outras citocinas que perpetuam a degeneração
Estado da evidência clínica
A evidência ainda é emergente, mas consistente o suficiente para considerar o BMAC como opção em pacientes selecionados. O estudo controlado randomizado de Noriega et al. (2017), publicado no Transplantation, demonstrou melhora significativa em dor e função em pacientes com discopatia degenerativa tratados com injeção intradiscal de MSCs autólogas, com manutenção da altura discal em comparação ao grupo controle. Pettine et al. (2015), no The Bone & Joint Journal, acompanharam pacientes tratados com BMAC intradiscal e observaram que 60% evitaram a cirurgia em seguimento de 12 meses, com melhora nos escores de dor e funcionalidade. Uma revisão sistemática de Divi et al. (2021) consolidou os achados: resultados favoráveis em dor, função e preservação da altura discal — com perfil de segurança adequado. A limitação atual é o número ainda reduzido de estudos de longo prazo e a ausência de padronização nos protocolos de preparação do BMAC.
Para quem o BMAC pode ser uma opção
O BMAC não substitui a infiltração convencional na fase aguda, nem é indicado para todos os pacientes com hérnia de disco. O perfil mais favorável é o do paciente com discopatia degenerativa com hérnia associada, que respondeu parcialmente ao tratamento conservador clássico — melhora suficiente para descartar a cirurgia imediata, mas com dor residual e degeneração discal progressiva que justificam uma intervenção regenerativa. Também é considerado em pacientes que querem adiar ou evitar a cirurgia e aceitam participar de um processo com evidência ainda em consolidação.
Na minha prática, posiciono o BMAC como uma ferramenta de segunda linha no arsenal conservador — depois de fisioterapia e infiltração convencional, mas antes da indicação cirúrgica. É uma opção que faz sentido discutir individualmente com cada paciente, considerando o perfil da degeneração, a resposta prévia ao tratamento e as expectativas.
Quando a cirurgia é necessária: sinais de alerta
Existe uma minoria de casos — real, mas pequena — em que o tratamento conservador não é suficiente ou não é seguro. Conhecer esses sinais é fundamental, tanto para o médico quanto para o paciente. Quando algum dos critérios abaixo está presente, a avaliação neurocirúrgica de urgência está indicada e a cirurgia pode ser a melhor opção.
Sinais que indicam avaliação cirúrgica urgente
- Síndrome da cauda equina: dificuldade para urinar, incontinência urinária ou fecal, dormência na região perineal ("dormência em sela") — emergência cirúrgica nas primeiras 24-48 horas
- Déficit motor progressivo: fraqueza muscular que está piorando — dificuldade para levantar o pé, queda da perna, impossibilidade de ficar na ponta do pé
- Mielopatia cervical: dificuldade de coordenação das mãos, instabilidade ao caminhar, alteração de equilíbrio — indica compressão da medula espinhal, não apenas da raiz nervosa
- Falha do tratamento conservador: dor incapacitante que não responde a 6 a 12 semanas de tratamento adequado — inclui fisioterapia, medicação e infiltração quando indicada
- Comprometimento da qualidade de vida: paciente que não consegue trabalhar, dormir ou realizar atividades básicas apesar de tratamento otimizado
É importante deixar claro: quando a cirurgia é indicada, ela tem altíssimo índice de sucesso. As técnicas minimamente invasivas atuais — microdiscectomia endoscópica, por exemplo — permitem resolver o problema por uma incisão de menos de 1 cm, com internação de poucas horas e retorno às atividades em dias a semanas. O medo da cirurgia não deve retardar uma indicação cirúrgica legítima, assim como a indicação cirúrgica não deve antecipar um processo que o próprio corpo pode resolver.
Perguntas frequentes
O que você deve levar deste artigo
A hérnia de disco é um diagnóstico assustador — mas não precisa ser. A esmagadora maioria dos casos se resolve com tratamento conservador bem conduzido: controle da dor, fisioterapia ativa e, quando necessário, infiltração. O próprio organismo, dado tempo e suporte adequado, reabsorve o material herniado.
O papel do neurocirurgião de coluna não é operar toda hérnia que aparece na ressonância. É identificar os raros casos em que a cirurgia é de fato necessária — e nesse cenário, realizá-la com técnica minimamente invasiva, com máxima eficiência e mínima morbidade. Para todos os outros, o melhor caminho é a ciência e a paciência.
Se você tem um diagnóstico de hérnia de disco e não sabe se precisa operar — ou se está há meses tentando tratamentos sem resultado e quer uma avaliação especializada —, agende uma consulta. Na maioria dos casos, a resposta que você vai ouvir é que podemos resolver sem cirurgia.
Referências Científicas
- Zhong M, et al. Incidence of Spontaneous Resorption of Lumbar Disc Herniation. Pain Physician. 2017;20(1):E45–E52.
- Chiu CC, et al. The probability of spontaneous regression of lumbar herniated disc. Medicine (Baltimore). 2015;94(43):e1893.
- Manchikanti L, et al. Epidural injections for lumbar radiculopathy or sciatica. Pain Physician. 2015;18(6):535–82.
- Peul WC, et al. Surgery versus prolonged conservative treatment for sciatica. N Engl J Med. 2007;356(22):2245–56.
- Weber H. Lumbar disc herniation: a controlled, prospective study with ten years of observation. Spine. 1983;8(2):131–40.
- Lurie JD, et al. Surgical versus nonoperative treatment for lumbar disc herniation. Spine. 2014;39(1):3–16.
- Noriega DC, et al. Intervertebral Disc Repair by Autologous Mesenchymal Bone Marrow Cells: A Controlled Trial. Transplantation. 2017;101(8):1945–51.
- Pettine KA, et al. Percutaneous injection of autologous bone marrow concentrate cells significantly reduces lumbar discogenic pain through 12 months. Stem Cells. 2015;33(1):146–56.
- Divi SN, et al. Intradiscal Biologic Injections for Chronic Low Back Pain: A Systematic Review. Global Spine J. 2021;11(8):1381–95.
- Oehme D, et al. Mesenchymal Stem Cell and Platelet-Rich Plasma-Mediated Disc Repair. Global Spine J. 2016;6(2):179–87.