Ouvir a expressão "tumor na coluna" é assustador. É importante começar com dois esclarecimentos. Primeiro: a imensa maioria das dores nas costas não tem relação com tumores. Segundo: quando existe um tumor na coluna, o tratamento evoluiu muito nas últimas duas décadas, com mais opções, menos agressividade e melhores resultados.
Tipos de tumor da coluna
Os tumores que acometem a coluna podem ser divididos em dois grandes grupos:
- Metástases: são, de longe, os mais comuns. São células de um câncer de outro órgão, como mama, pulmão, próstata, rim ou tireoide, que se instalam nas vértebras. Também entram neste grupo doenças do sangue, como o mieloma múltiplo;
- Tumores primários: nascem na própria coluna ou nas estruturas ao redor dela. Podem ser benignos ou malignos e são bem mais raros. Incluem tumores do osso, como o hemangioma (muito comum e geralmente inofensivo), e tumores que nascem nos nervos ou nas membranas da medula, como schwannomas e meningiomas.
As metástases na coluna estão se tornando mais frequentes justamente porque os pacientes com câncer estão vivendo mais, graças a tratamentos oncológicos mais eficazes1.
Sinais de alerta
A dor é o primeiro sintoma na maioria dos pacientes. Algumas características diferenciam a dor de origem tumoral da dor mecânica comum:
- Dor contínua e progressiva, que não melhora com repouso;
- Dor que piora à noite ou acorda o paciente;
- Dor nova nas costas em quem tem ou já teve câncer;
- Perda de peso sem explicação, cansaço e falta de apetite;
- Dor que irradia em faixa ao redor do tórax ou do abdome.
Compressão da medula é urgência
Fraqueza nas pernas, dormência que sobe pelo corpo, dificuldade para andar ou alteração no controle da urina e das fezes em paciente com câncer podem indicar compressão da medula por metástase. É uma emergência: o tempo até o tratamento influencia diretamente a chance de preservar a capacidade de andar2.
Especialistas em oncologia recomendam alto grau de suspeita: em pacientes com câncer, uma dor nas costas nova ou que piora deve ser investigada antes que surjam déficits motores, sensitivos ou urinários2.
Diagnóstico
A ressonância magnética é o exame de escolha. Quando há suspeita de metástase, recomenda-se avaliar a coluna inteira, porque é comum haver lesões em mais de um nível2. Tomografia e exames de medicina nuclear, como o PET-CT, complementam a avaliação do osso e a procura de lesões em outros locais. Quando o tumor de origem não é conhecido, a biópsia guiada por imagem define o diagnóstico.
Como se decide o tratamento
O tratamento das metástases na coluna é multidisciplinar, envolvendo cirurgião de coluna, oncologista clínico, radio-oncologista e equipe de dor e reabilitação. Ferramentas de decisão consideram quatro pontos principais1,3:
Neurológico
Grau de compressão da medula
Oncológico
Sensibilidade do tumor à radioterapia
Mecânico e sistêmico
Estabilidade da coluna e estado geral
Radioterapia de alta precisão
A radioterapia estereotáxica corporal (SBRT), também chamada de radiocirurgia, entrega doses muito altas de radiação diretamente no tumor, com precisão milimétrica e proteção da medula. Ela proporciona controle local duradouro do tumor com baixas taxas de toxicidade grave, inclusive em tumores que antes eram considerados resistentes à radioterapia convencional3.
Cirurgia
A cirurgia tem papel decisivo quando há compressão da medula ou instabilidade da coluna. Um ensaio clínico randomizado publicado no Lancet comparou cirurgia de descompressão seguida de radioterapia com radioterapia isolada em pacientes com compressão medular por metástase. Após o tratamento, 84% dos pacientes operados conseguiam andar, contra 57% no grupo da radioterapia isolada, e eles mantiveram a capacidade de andar por mais tempo4.
Hoje, a cirurgia costuma ser menos extensa. A chamada cirurgia de separação retira apenas o tumor que comprime a medula e estabiliza a coluna, criando uma margem de segurança para que a radiocirurgia trate o restante1. Técnicas minimamente invasivas reduzem o tempo de recuperação e permitem retomar o tratamento oncológico mais cedo.
Procedimentos percutâneos
Para fraturas dolorosas causadas por metástases, a injeção de cimento ósseo na vértebra (vertebroplastia ou cifoplastia), às vezes associada à ablação do tumor, alivia a dor e estabiliza o osso por meio de pequenas punções1.
Cada caso é único
Diretrizes internacionais reforçam que a decisão deve considerar o tipo de tumor, a expectativa de vida, o estado geral e, principalmente, os objetivos do paciente2,5. Às vezes o melhor tratamento é o mais simples, e o foco é garantir controle da dor e qualidade de vida.
Conclusão
A maior parte das dores nas costas não tem relação com tumores. Mas dor que não melhora com repouso, piora à noite ou surge em quem tem histórico de câncer precisa de investigação. Diante de fraqueza nas pernas ou alterações urinárias, a avaliação deve ser imediata.
O tratamento atual combina cirurgia menos agressiva, radioterapia de alta precisão e procedimentos minimamente invasivos, sempre de forma integrada com a equipe de oncologia. Com diagnóstico precoce, é possível preservar a função neurológica e a qualidade de vida na maioria dos pacientes.