A dor na região lombar baixa e nos glúteos que piora ao ficar sentado por longos períodos ou ao levantar-se pela manhã pode ter uma causa que muitos pacientes — e até médicos — não reconhecem imediatamente: a sacroileíte. Trata-se da inflamação de uma ou ambas as articulações sacroilíacas, estruturas que conectam a coluna vertebral (sacro) à pelve (ílio). Quando inflamadas, essas articulações causam uma dor característica que pode irradiar para as pernas e ser confundida com hérnia de disco ou ciatalgia.
Como neurocirurgião especializado em coluna, vejo frequentemente pacientes que passaram meses ou anos sendo tratados de forma inadequada porque a sacroileíte não foi identificada corretamente. Neste artigo, explico tudo o que você precisa saber sobre essa condição.
O que é a Articulação Sacroilíaca?
A articulação sacroilíaca (SI) é formada pela junção do sacro — a estrutura óssea triangular na base da coluna — com os dois ossos ilíacos da pelve. Temos duas articulações sacroilíacas, uma de cada lado.
Diferentemente de outras articulações do corpo, a SI tem mobilidade muito limitada — apenas alguns milímetros de movimento. Sua principal função é absorver e transferir cargas entre a coluna vertebral e os membros inferiores durante caminhadas, corridas e movimentos da vida diária. Quando essa articulação se inflama, qualquer movimento transmitido por ela causa dor intensa.
Dado importante
Estima-se que a sacroileíte seja responsável por 15% a 25% de todos os casos de dor lombar crônica, sendo uma das causas mais frequentes e menos diagnosticadas de lombalgia.
Causas da Sacroileíte
A inflamação da articulação sacroilíaca pode ter diferentes origens. Identificar a causa correta é fundamental para o tratamento adequado:
Espondiloartrite
Doenças inflamatórias crônicas como espondilite anquilosante que atacam as articulações sacroilíacas
Trauma / Sobrecarga
Queda sobre a pelve, gravidez, obesidade ou atividade física de alto impacto
Infecção (Piogênica)
Bactérias que atingem a articulação por via sanguínea — forma rara mas grave
Gravidez e Pós-Parto
O relaxamento hormonal dos ligamentos durante a gestação pode causar instabilidade da SI
Outras causas associadas:
- Artrite psorísica e artrite reativa
- Doença inflamatória intestinal (Crohn, retocolite ulcerativa)
- Discrepância no comprimento das pernas
- Escoliose com alteração do equilíbrio pélvico
- Desgaste articular (osteoartrite) em pessoas mais idosas
Sintomas: Como Identificar a Sacroileíte
O quadro clínico da sacroileíte tem características próprias que a distinguem de outras causas de dor lombar:
Dor com localização típica
A dor geralmente se origina na região lombar baixa ou no glúteo, mais frequentemente de um lado só (unilateral). Pode irradiar para a coxa posterior, virilha e, em casos mais intensos, até o joelho — o que leva muitos pacientes a pensarem em hérnia de disco.
Padrão de piora e melhora
Uma característica marcante da sacroileíte de origem inflamatória é que a dor:
- Piora ao repouso prolongado — especialmente à noite e pela manhã (rigidez matinal)
- Melhora com o movimento — ao contrário da dor mecânica, que melhora em repouso
- Piora ao ficar sentado por longos períodos
- Piora ao subir escadas ou ao apoiar o peso em um só pé
- Piora com pressão direta sobre a articulação sacroilíaca
Sinais de alerta
Procure atendimento médico urgente se a dor vier acompanhada de febre, calafrios, perda de peso involuntária, dormência progressiva nos membros inferiores ou dificuldade para urinar ou evacuar. Esses sinais podem indicar infecção na articulação ou compressão nervosa grave.
Como é Feito o Diagnóstico
O diagnóstico da sacroileíte é fundamentalmente clínico, mas complementado por exames de imagem e laboratório:
Exame físico
O médico realiza testes específicos como o Teste de FABER (Flexão, Abdução e Rotação Externa do quadril) e o Teste de compressão pélvica. A reprodução da dor nessas manobras orienta fortemente o diagnóstico.
Exames de imagem
- Ressonância Magnética (RM): exame de escolha — detecta inflamação ativa antes de aparecer na radiografia
- Raio-X: útil em casos crônicos com erosões ou fusão articular
- Tomografia Computadorizada (TC): avalia alterações ósseas com mais detalhes
Exames laboratoriais
Quando suspeita-se de causa inflamatória sistêmica, solicitamos: VHS, PCR, HLA-B27 (marcador genético da espondiloartrite), hemograma e fator reumatoide.
Tratamento da Sacroileíte
O tratamento varia conforme a causa, a intensidade dos sintomas e o tempo de evolução. O objetivo é reduzir a inflamação, aliviar a dor e melhorar a função.
Tratamento conservador
- Anti-inflamatórios (AINEs): ibuprofeno ou naproxeno são a primeira linha para alívio da dor e da inflamação
- Fisioterapia: exercícios para fortalecer o core, melhorar a estabilidade pélvica e corrigir desequilíbrios musculares
- Calor ou frio: calor para rigidez matinal, frio para crises agudas de dor
- Repouso relativo: evitar alto impacto durante as crises, sem imobilização total
Infiltração articular (Bloqueio Sacroilíaco)
Quando o tratamento conservador não é suficiente, a infiltração guiada por imagem com corticoide e anestésico local diretamente na articulação sacroilíaca oferece alívio significativo. O procedimento é minimamente invasivo, ambulatorial, com resultados que duram vários meses. Como neurocirurgião de coluna, realizo esse procedimento com frequência.
Tratamento biológico
Nos casos de sacroileíte associada à espondiloartrite, os medicamentos biológicos (inibidores de TNF-alfa como adalimumabe e etanercepte) são muito eficazes e modificam o curso da doença. Indicação feita em conjunto com o reumatologista.
Radiofrequência e cirurgia
Em casos refratários, a denervação por radiofrequência pode oferecer alívio prolongado. A fusão cirúrgica é reservada para casos muito selecionados de dor incapacitante sem resposta a outras abordagens.
Conclusão
A sacroileíte é uma causa frequente e frequentemente negligenciada de dor lombar. O diagnóstico correto — diferenciando-a de hérnias de disco, estenose de canal e outras patologias da coluna — é o primeiro passo para um tratamento eficaz. Se você apresenta dor lombar baixa ou nos glúteos que piora ao repouso e melhora com o movimento, procure avaliação especializada.
Com o tratamento adequado, a grande maioria dos pacientes consegue controle efetivo da dor e retorno pleno às atividades. Não deixe que uma condição tratável comprometa sua qualidade de vida.