É comum ouvir que o excesso de peso "força a coluna". A afirmação faz sentido intuitivo, mas o que a ciência mostra? A relação entre obesidade e dor nas costas existe e é consistente, porém é mais complexa do que uma simples questão de carga.
O que os estudos mostram
Uma meta-análise com 33 estudos mostrou que pessoas com obesidade têm maior prevalência de dor lombar, procuram mais atendimento por causa dela e têm mais dor lombar crônica. Em estudos que acompanharam pessoas ao longo do tempo, a obesidade se associou a maior incidência de dor lombar. Pessoas com sobrepeso ficaram em posição intermediária entre as de peso normal e as com obesidade1.
Uma meta-análise mais recente, com 10 estudos de coorte e quase 30 mil participantes, confirmou: o sobrepeso e, de forma mais acentuada, a obesidade aumentam o risco de desenvolver dor lombar em comparação com o peso normal2.
Um efeito "dose-resposta"
Quanto maior o excesso de peso, maior o risco. O sobrepeso já aumenta um pouco a chance de dor lombar, e a obesidade aumenta ainda mais1,2.
Por que o peso afeta a coluna
Carga mecânica
O excesso de peso, especialmente na região abdominal, aumenta a carga sobre os discos e as articulações da coluna lombar. Ele também desloca o centro de gravidade para frente, o que aumenta a curvatura lombar e sobrecarrega as articulações facetárias.
Inflamação
O tecido adiposo não é apenas um depósito de energia. Ele produz substâncias inflamatórias que circulam pelo corpo e podem contribuir para a degeneração das articulações e para a sensibilização à dor. Por isso a obesidade se associa também à dor em locais que não suportam peso.
Estilo de vida
Obesidade, sedentarismo, sono de má qualidade e perda de massa muscular frequentemente andam juntos, e todos esses fatores influenciam a dor nas costas.
Genética também conta
Uma revisão de estudos com gêmeos, que permite controlar a influência da genética e do ambiente na infância, trouxe uma informação interessante. A associação entre obesidade e dor lombar se manteve mesmo quando fatores genéticos e familiares foram considerados. Já a relação entre obesidade e degeneração dos discos foi menos consistente3. Em outras palavras, o peso parece influenciar a dor por caminhos que vão além do desgaste do disco.
Carga
Mais pressão sobre discos e articulações
Inflamação
Substâncias que sensibilizam a dor
Hábitos
Sedentarismo, sono e perda muscular
Perder peso melhora a dor?
Uma revisão sistemática avaliou programas de perda de peso em pessoas com dor lombar. Os estudos sugerem melhora da dor e da incapacidade com a perda de peso, mas a qualidade da evidência ainda é baixa e os estudos são poucos e heterogêneos4. Na prática, os programas que combinam alimentação, exercício e mudança de hábitos parecem os mais promissores.
Mesmo sem uma evidência conclusiva sobre a dor, perder peso traz benefícios claros para a saúde geral e reduz a carga sobre a coluna. E o exercício, parte essencial de qualquer programa de emagrecimento, é um dos tratamentos com melhor evidência para a dor lombar crônica.
Obesidade e cirurgia de coluna
Quando a cirurgia é necessária, a obesidade não é uma contraindicação absoluta, e muitos pacientes com obesidade se beneficiam bastante do tratamento cirúrgico. Ela, porém, aumenta o risco de algumas complicações, como infecção da ferida e problemas de cicatrização. Por isso, sempre que a situação permite esperar, buscar uma redução de peso antes da cirurgia é recomendável. Técnicas minimamente invasivas também ajudam a reduzir esses riscos.
Peso não explica tudo
Dor que irradia para a perna, formigamento, fraqueza, alteração urinária, febre ou perda de peso sem explicação precisam de avaliação, independentemente do peso. Não atribua esses sintomas apenas ao excesso de peso.
Conclusão
A obesidade aumenta o risco de dor lombar, por uma combinação de carga mecânica, inflamação e hábitos de vida. A perda de peso, associada ao exercício, é uma estratégia sensata tanto para a saúde da coluna quanto para a saúde geral, embora a evidência direta sobre a dor ainda esteja em construção.
Se você tem dor nas costas e excesso de peso, um plano integrado, que inclua tratamento da dor, exercício orientado e acompanhamento nutricional, costuma trazer os melhores resultados.