A infiltração na coluna é um procedimento em que um medicamento, geralmente um anestésico associado a um corticoide, é aplicado com agulha fina exatamente no local suspeito de causar a dor. Ela é feita com orientação por imagem, por radioscopia, tomografia ou ultrassom, o que aumenta a precisão e a segurança.
É uma ferramenta útil, mas cercada de expectativas exageradas. Entender para que ela serve, e para que não serve, é o primeiro passo para usá-la bem.
Dois objetivos: diagnosticar e tratar
A infiltração tem duas funções que se complementam:
- Diagnóstica: a coluna tem várias estruturas que podem doer ao mesmo tempo. Ao anestesiar um alvo específico e observar se a dor desaparece, confirmamos qual estrutura é a fonte da dor. Isso orienta os próximos passos do tratamento e evita cirurgias no alvo errado;
- Terapêutica: o corticoide reduz a inflamação local e pode aliviar a dor por semanas ou meses, abrindo uma janela para a reabilitação.
Principais tipos
Epidural
Para dor irradiada por raiz nervosa
Facetária
Para dor das articulações da coluna
Sacroilíaca
Para dor na região das nádegas
Infiltração epidural
O medicamento é aplicado no espaço epidural, ao redor das raízes nervosas. É usada principalmente na ciática e na cervicobraquialgia causadas por hérnia de disco ou estenose. Pode ser feita pela via transforaminal (no ponto de saída da raiz), interlaminar ou caudal.
O que a ciência mostra: uma revisão Cochrane encontrou redução pequena da dor na perna e da incapacidade no curto prazo em comparação com placebo, com eventos adversos geralmente leves1. Outra meta-análise, que avaliou se o efeito era clinicamente relevante, encontrou benefício relevante apenas em uma minoria das análises, com evidência de baixa certeza2.
Na prática, isso significa que a infiltração epidural não "cura" a hérnia nem substitui a cirurgia quando ela é necessária. Seu papel é aliviar a fase mais dolorosa, permitir a fisioterapia e dar tempo para a evolução natural, que é favorável na maioria dos casos de ciática.
Infiltração facetária e bloqueio do ramo medial
As facetas são as pequenas articulações na parte de trás da coluna, frequentemente afetadas pela artrose. A injeção pode ser feita dentro da articulação ou nos pequenos nervos que a inervam, chamados de ramos mediais.
Como tratamento, a evidência para a infiltração dentro da faceta é limitada: uma revisão sistemática encontrou poucos estudos, pequenos e na maioria inconclusivos3. Seu maior valor está no diagnóstico: o bloqueio que alivia a dor confirma a faceta como origem e seleciona os pacientes para a radiofrequência.
Radiofrequência
Na radiofrequência, uma agulha especial aquece e interrompe o pequeno nervo que conduz a dor da articulação. O alívio costuma durar mais do que o da infiltração com corticoide. Uma revisão Cochrane mostrou que a evidência ainda é de qualidade baixa a moderada e com resultados variáveis entre os estudos4. Os melhores resultados aparecem quando o paciente é bem selecionado, com bloqueios diagnósticos positivos e técnica precisa.
A seleção do paciente faz toda a diferença
Grande parte da variação nos resultados das infiltrações vem de quem recebe o procedimento. Infiltrar sem um diagnóstico claro tende a decepcionar. Infiltrar o alvo certo, confirmado pelo exame clínico e pela imagem, aumenta muito a chance de benefício.
Como é o procedimento
- É feito em ambiente com equipamento de imagem, geralmente com o paciente deitado de bruços;
- A pele é anestesiada e a agulha é guiada até o alvo, com confirmação por imagem e, muitas vezes, por contraste;
- Dura de 15 a 40 minutos, e o paciente volta para casa no mesmo dia;
- É comum sentir alívio imediato pelo anestésico, seguido de alguns dias de dor variável até o corticoide começar a agir.
Riscos e cuidados
As infiltrações guiadas por imagem são procedimentos seguros, e as complicações graves são raras. Os efeitos mais comuns são dor no local, rubor facial e aumento temporário da glicose em diabéticos. Algumas medicações, como anticoagulantes, podem precisar de ajuste antes do procedimento, sempre com orientação médica.
Um cuidado importante é com a repetição. Uma revisão sistemática mostrou que doses acumuladas de corticoide epidural se associam a redução da densidade óssea, especialmente em mulheres após a menopausa5. Por isso, as infiltrações devem ser espaçadas e ter número limitado, e a saúde óssea deve ser avaliada em quem precisa de aplicações repetidas.
Após a infiltração, procure atendimento se houver
Febre, dor de cabeça intensa que piora em pé, fraqueza nova nas pernas, vermelhidão ou secreção no local da punção ou alteração no controle da urina.
Conclusão
A infiltração na coluna é uma ferramenta valiosa quando usada com critério. Ela ajuda a confirmar de onde vem a dor e pode aliviar a fase aguda, permitindo a reabilitação. Mas o alívio costuma ser temporário e o benefício, em média, moderado.
O melhor resultado vem de um diagnóstico preciso, de um alvo bem definido e de um plano que combine o procedimento com exercício e acompanhamento. Converse com seu médico sobre o que esperar em cada caso.