"Tenho dor na coluna, posso fazer exercício?" Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório. A resposta, para a grande maioria das pessoas, é sim. Mais do que permitido, o exercício é um dos tratamentos com melhor evidência científica para a dor lombar crônica.
O exercício funciona
Uma revisão Cochrane que reuniu centenas de ensaios clínicos concluiu que o exercício reduz a dor e melhora a capacidade funcional em adultos com dor lombar crônica, em comparação com nenhum tratamento ou cuidados habituais1. O efeito médio é moderado, mas consistente, e vem acompanhado de benefícios para o resto da saúde: coração, ossos, sono e humor.
O exercício também previne novos episódios. Uma meta-análise de ensaios controlados mostrou que o exercício isolado reduziu em 33% o risco de dor lombar, e o exercício combinado com orientação reduziu esse risco em 27%. A intensidade da dor e a incapacidade também foram menores nos grupos que se exercitaram2.
O melhor exercício é o que você faz
A regularidade importa mais do que a modalidade. Um programa que você goste e consiga manter por meses vale mais do que o "exercício perfeito" abandonado em três semanas.
Qual tipo de exercício é melhor?
Uma meta-análise em rede, com 118 ensaios clínicos e quase 10 mil participantes, comparou diferentes tipos de exercício para a dor lombar crônica. Praticamente todos os tipos foram eficazes em comparação com o controle. Pilates, treino de força, exercícios de estabilização do tronco e práticas que combinam corpo e mente, como ioga, estiveram entre os mais eficazes. O alongamento isolado foi o menos eficaz para reduzir a dor3.
Pilates
Controle, força do tronco e mobilidade
Força
Musculação com carga progressiva e técnica
Corpo e mente
Ioga e práticas com respiração
Pilates
Muito procurado por quem tem dor nas costas, o pilates foi avaliado em uma revisão Cochrane, que mostrou redução da dor e da incapacidade em comparação com intervenções mínimas. Quando comparado a outros tipos de exercício, porém, não houve superioridade clara4. Ou seja, o pilates é uma ótima opção, mas não é a única.
Musculação
A musculação bem orientada é segura e eficaz para quem tem dor lombar. O ponto-chave é a progressão: começar com cargas leves, priorizar a técnica e aumentar a intensidade de forma gradual. Fortalecer glúteos, abdome, músculos das costas e das pernas protege a coluna nas atividades do dia a dia.
Caminhada e corrida
A atividade aeróbica, como caminhar, pedalar ou nadar, é parte importante do tratamento. E há uma curiosidade: um estudo com ressonância mostrou que corredores habituais tinham discos intervertebrais mais hidratados e com melhor composição do que pessoas sedentárias. Corrida leve e caminhada rápida se associaram a discos mais saudáveis, enquanto atividades de alto impacto não mostraram esse benefício5. É um achado observacional, que não prova causa e efeito, mas desfaz o mito de que correr necessariamente "gasta" a coluna.
Alongamento
O alongamento traz conforto e melhora a mobilidade, mas, sozinho, tem efeito menor sobre a dor do que os outros tipos de exercício3. Funciona melhor como complemento de um programa de fortalecimento.
Como começar com segurança
- Comece devagar e aumente a intensidade aos poucos. É normal sentir algum desconforto no início, que tende a diminuir com a adaptação;
- Dor não é sinônimo de lesão: um leve aumento da dor durante ou após o exercício, que passa em até 24 horas, geralmente não indica dano;
- Procure orientação de um fisioterapeuta ou profissional de educação física, principalmente no início;
- Seja regular: duas a três sessões por semana, por vários meses, trazem os melhores resultados.
E com hérnia de disco?
Pessoas com hérnia de disco também se beneficiam do exercício. Na fase aguda, com dor intensa irradiada para a perna, o exercício é adaptado e progride conforme a dor melhora. Na fase crônica, o programa é semelhante ao de outras causas de dor lombar, respeitando os movimentos que aumentam os sintomas.
Pare e procure avaliação se houver
Dor que irradia para a perna e piora progressivamente, formigamento ou perda de força, dor intensa que não melhora com repouso ou alteração no controle da urina. Nesses casos, a avaliação médica vem antes de continuar o exercício.
Conclusão
Quem tem dor na coluna pode, e na maioria das vezes deve, se exercitar. O exercício reduz a dor, melhora a função e previne novas crises. Pilates, musculação, estabilização do tronco, ioga e atividade aeróbica são boas opções, e a melhor escolha é aquela que você consegue manter.
Se você tem dúvidas sobre por onde começar ou tem dor persistente, uma avaliação ajuda a montar um plano seguro e adequado ao seu caso.