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Coluna Vertebral

Espondilolistese: Quando uma Vértebra Escorrega sobre a Outra

Entenda os tipos, graus de escorregamento, sintomas e saiba exatamente quando o tratamento conservador resolve — e quando a cirurgia é necessária.

20 de abril de 2026 8 min de leitura Dr. Felipe Barreto

Imagine uma pilha de blocos perfeitamente alinhados. Agora imagine que um desses blocos começa a deslizar para frente sobre o de baixo. É exatamente isso que acontece na espondilolistese: uma vértebra se desloca para a frente (ou, raramente, para trás) em relação à vértebra imediatamente abaixo. Esse escorregamento pode ser mínimo e assintomático, ou suficientemente grave para comprimir nervos e medula, causando dor intensa, irradiação para as pernas e, nos casos mais avançados, perda de força e alteração do controle dos esfíncteres. O diagnóstico é mais comum do que se imagina — e a boa notícia é que a grande maioria dos casos se resolve sem cirurgia.

O que causa o escorregamento?

A espondilolistese não tem uma causa única. Existem diferentes tipos, cada um com mecanismo e perfil de paciente distintos:

Ístmica (espondilólise)

Fratura de estresse na pars interarticularis. Mais comum em jovens atletas — ginastas, jogadores de futebol americano, levantadores de peso.

Degenerativa

A mais comum em adultos acima de 50 anos. Resulta da artrose das facetas articulares e degeneração do disco, que perdem a capacidade de manter as vértebras alinhadas.

Displásica (congênita)

Malformação das estruturas posteriores da vértebra presente desde o nascimento, predispondo ao escorregamento com o crescimento.

Traumática ou Iatrogênica

Secundária a fraturas agudas ou, mais raramente, a cirurgias prévias que comprometeram a estabilidade segmentar.

Onde ocorre mais frequentemente?

Cerca de 90% das espondilolisteses ocorrem no nível L4-L5 ou L5-S1 — os dois segmentos mais móveis e sobrecarregados da coluna lombar. L5-S1 é o mais acometido na forma ístmica; L4-L5 na forma degenerativa.

Os graus de escorregamento — o que eles significam?

A classificação de Meyerding divide a espondilolistese em cinco graus, de acordo com a porcentagem de deslocamento da vértebra superior em relação à inferior:

I
Grau 1
até 25%
Leve. Maioria assintomática ou com dor lombar discreta.
II
Grau 2
25–50%
Moderado. Dor lombar e possível irradiação para pernas.
III
Grau 3
50–75%
Grave. Compressão neural frequente, limitação funcional importante.
IV
Grau 4
75–100%
Muito grave. Alteração postural visível, alto risco neurológico.
V
Espondiloptose
>100%
A vértebra cai completamente à frente da inferior. Raro e geralmente cirúrgico.

É importante saber que o grau de escorregamento não se correlaciona perfeitamente com a intensidade dos sintomas. Há pacientes com grau III praticamente sem dor, e outros com grau I com ciática incapacitante. O contexto clínico completo — sintomas, exame neurológico e qualidade de vida — é o que define a conduta.

Sintomas: o que o paciente sente

Sinal de alerta — síndrome da cauda equina

Perda de controle da bexiga ou intestino, dormência na região genital e fraqueza súbita nas duas pernas são sinais de síndrome da cauda equina — emergência neurocirúrgica que exige cirurgia nas primeiras horas. Vá imediatamente ao pronto-socorro.

Como o diagnóstico é feito?

Radiografia simples

É o exame inicial. O perfil mostra o deslocamento e permite calcular o grau de Meyerding. As incidências dinâmicas (em flexão e extensão) são fundamentais para avaliar se o escorregamento é estável ou instável — distinção crucial para a decisão cirúrgica.

Ressonância Magnética (RM)

Avalia a compressão de raízes nervosas, o estado dos discos e o grau de estenose do canal. É essencial antes de qualquer cirurgia e para os casos que não melhoram com o tratamento conservador.

Tomografia Computadorizada (TC)

Superior para avaliar detalhes ósseos — presença de espondilólise (fratura na pars), calcificações e planejamento de instrumentação cirúrgica.

Tratamento: conservador primeiro

A ampla maioria dos pacientes com graus I e II — e muitos com grau III — responde bem ao tratamento não cirúrgico. O objetivo é controlar a dor, fortalecer a musculatura estabilizadora e preservar a qualidade de vida.

O que funciona no tratamento conservador

Quando a cirurgia é a melhor opção?

Qual cirurgia é feita?

O procedimento padrão é a artrodese lombar instrumentada — descompressão dos nervos e fixação do segmento instável com parafusos pediculares e hastes, promovendo fusão das vértebras. Pode ser feita por acesso posterior (PLIF ou TLIF), anterior (ALIF) ou combinado.

Técnicas minimamente invasivas (MIS-TLIF) permitem realizar a mesma cirurgia com incisões menores, menos sangramento, menos dor no pós-operatório e recuperação mais rápida — com resultados equivalentes às abordagens abertas para a maioria dos casos.

O que esperar do resultado cirúrgico?

Estudos de longo prazo mostram que 85 a 90% dos pacientes operados relatam melhora significativa da dor e da capacidade funcional. A taxa de fusão óssea com implantes modernos supera 95%. A recuperação completa leva em média 3 a 6 meses, com retorno às atividades leves em 4 a 6 semanas.

Conclusão

Espondilolistese não é uma sentença de cirurgia. A grande maioria dos pacientes se beneficia enormemente do tratamento conservador — especialmente quando iniciado cedo, com fisioterapia adequada e controle dos fatores agravantes. A cirurgia, quando indicada corretamente, tem resultados excelentes e pode devolver qualidade de vida a pacientes que sofriam há anos. Se você tem dor lombar persistente com ou sem irradiação para a perna, procure avaliação — o tratamento certo, feito na hora certa, faz toda a diferença.

Dr. Felipe Barreto

Neurocirurgião especializado em cirurgia minimamente invasiva da coluna. Atendimento em São Paulo. CREMESP 202.824

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