O esporte faz bem para a coluna, mas também a submete a cargas intensas e repetidas. Por isso a dor lombar é uma queixa frequente entre atletas de todas as idades e níveis, do adolescente que treina ginástica ao tenista amador que joga três vezes por semana.
Entender as causas e saber quando a dor exige investigação é fundamental para tratar bem e voltar ao esporte com segurança.
Quão comum é
Uma revisão sistemática mostrou que a dor lombar é muito prevalente entre atletas, com taxas que variam conforme o esporte e a forma de medir1. Em adolescentes atletas, uma meta-análise com 80 estudos estimou que cerca de 42% relataram dor lombar no último ano. Entre os fatores de risco estão o próprio volume e a intensidade de treino, dor em membros inferiores, sobrepeso, idade mais avançada na adolescência, sexo feminino e história familiar de dor lombar2.
Esportes que mais sobrecarregam a lombar
Modalidades com extensão repetida da coluna (inclinar o tronco para trás), rotação e impacto concentram mais casos:
- Ginástica artística e rítmica, balé e saltos ornamentais;
- Tênis, vôlei e outros esportes com saque ou movimentos acima da cabeça;
- Levantamento de peso, crossfit e luta;
- Golfe, remo e críquete, pela rotação e flexão repetidas;
- Futebol, pela combinação de chute, rotação e impacto.
Espondilólise: a causa que não pode passar despercebida no adolescente
No atleta adolescente, a causa estrutural mais comum de dor lombar é a espondilólise: uma fratura por estresse em uma pequena região da vértebra chamada pars interarticularis, geralmente na quinta ou na quarta vértebra lombar2,3. Ela acontece por estresse mecânico repetitivo, principalmente em esportes com hiperextensão da coluna, como ginástica, saltos ornamentais, levantamento de peso e luta4.
Quando a fratura acontece dos dois lados, a vértebra pode escorregar sobre a de baixo, condição chamada de espondilolistese ístmica4.
Sinais que sugerem espondilólise
Dor lombar em adolescente atleta que piora ao inclinar o tronco para trás, especialmente em pé sobre uma perna só, que dura mais de duas a três semanas ou que atrapalha o rendimento. Nesses casos, vale investigar antes de simplesmente "dar um tempo" do treino.
Diagnóstico
O exame físico levanta a suspeita, e os exames de imagem confirmam. Radiografias, tomografia e ressonância têm papéis complementares4. A ressonância tem a vantagem de detectar a lesão em fase inicial, quando ainda há apenas edema no osso, antes de a fratura se completar, e sem radiação.
Tratamento
A maior parte dos casos é tratada sem cirurgia. Em uma série com mais de 200 adolescentes atletas com espondilólise sintomática, o tratamento conservador, com afastamento das atividades que provocam dor, reabilitação e retorno progressivo, permitiu a volta ao esporte na grande maioria dos pacientes3. A cirurgia fica reservada para quem mantém sintomas apesar do tratamento ou tem escorregamento progressivo4.
Outras causas de dor lombar no atleta
Muscular
Sobrecarga e distensões, a causa mais comum
Disco
Mais comum em adultos, pode irradiar para a perna
Óssea
Espondilólise, sobretudo em adolescentes
Em atletas adultos, a dor de origem muscular e ligamentar é a mais frequente, seguida pelas causas relacionadas ao disco e às articulações facetárias. A dor que irradia para a perna sugere comprometimento de raiz nervosa e merece avaliação.
Tratamento e retorno ao esporte
Uma meta-análise de ensaios clínicos sobre tratamento da dor lombar em atletas mostrou que exercícios, ajustes biomecânicos e terapia manual reduziram a dor e a incapacidade. Porém, ainda não está claro qual tratamento é o mais eficaz e para quem, e faltam dados sobre o tempo de retorno ao esporte5.
Na prática, os pilares são:
- Ajuste da carga de treino, sem necessariamente parar totalmente;
- Fortalecimento do tronco e do quadril, que protegem a coluna nos gestos esportivos;
- Correção técnica de gestos que sobrecarregam a lombar, como o saque no tênis ou a hiperextensão na ginástica;
- Retorno progressivo, guiado pela ausência de dor nos testes funcionais e no gesto específico do esporte.
Procure avaliação se houver
Dor que dura mais de duas a três semanas, dor que acorda à noite, dor irradiada para a perna, formigamento ou fraqueza, ou dor lombar persistente em adolescente atleta.
Conclusão
A dor lombar é comum no esporte, e na maioria das vezes tem causa muscular e boa evolução. No adolescente atleta, porém, a espondilólise precisa ser lembrada, porque o diagnóstico precoce melhora as chances de consolidação e de retorno pleno ao esporte.
Com diagnóstico correto, ajuste do treino e reabilitação dirigida, a grande maioria dos atletas volta a praticar sua modalidade com segurança.