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Coluna

Doença de Baastrup: quando as vértebras se "beijam" e causam dor lombar

Uma causa comum, e pouco lembrada, de dor lombar que piora ao inclinar o corpo para trás. Entenda como é feito o diagnóstico e quais tratamentos existem.

10 de outubro de 2026 6 min de leitura Dr. Felipe Barreto

Algumas pessoas sentem uma dor bem no meio da coluna lombar, exatamente sobre os "ossinhos" que dá para apalpar nas costas. A dor piora ao inclinar o tronco para trás e alivia ao curvar para frente. Quando isso acontece, uma das causas a considerar é a doença de Baastrup, também chamada de síndrome das espinhosas que se beijam (kissing spine).

Por muito tempo ela foi vista como raridade. Hoje se sabe que a doença de Baastrup é uma causa frequente de dor lombar, embora seja pouco diagnosticada1,2.

O que é a doença de Baastrup

Cada vértebra tem, na parte de trás, uma projeção óssea chamada processo espinhoso. São essas saliências que sentimos ao passar a mão pela coluna. Normalmente existe um espaço entre um processo espinhoso e o seguinte, preenchido por ligamentos.

Com o envelhecimento e o desgaste dos discos, as vértebras se aproximam. A coluna lombar pode aumentar a curvatura e os ligamentos entre os processos espinhosos degeneram. Os processos espinhosos passam então a se tocar, principalmente quando a pessoa estende a coluna. O atrito repetido provoca inflamação, formação de uma bursa (uma pequena bolsa de líquido entre os ossos) e alterações ósseas nas superfícies de contato2,3.

Mais comum do que se pensava

Um estudo com 375 pacientes que fizeram ressonância lombar encontrou sinais da doença de Baastrup em 37,8% deles. A frequência aumentou com a idade e chegou a 87,5% nos pacientes com 80 anos ou mais4.

A doença raramente vem sozinha

A doença de Baastrup costuma aparecer junto com outras alterações degenerativas da coluna. No estudo citado acima, ela se associou a abaulamentos e hérnias de disco, degeneração discal, artrose das facetas, estenose do canal e escorregamento vertebral (anterolistese)4.

Isso tem uma consequência prática importante. Em um paciente com vários achados no exame, a dor pode vir do contato entre os processos espinhosos, e não do disco ou da estenose que chamam mais atenção no laudo. Autores de revisão alertam que deixar de reconhecer a doença de Baastrup pode levar a cirurgias que não atingem a real fonte da dor2.

Também há uma relação com outros problemas: a inflamação entre os processos espinhosos pode formar cistos que avançam para dentro do canal vertebral e contribuem para a compressão dos nervos. Por isso alguns autores descrevem a doença de Baastrup, a bursite interespinhosa, a estenose e a instabilidade como partes de um mesmo processo, e não como doenças separadas3.

Sintomas típicos

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico une a história clínica, o exame físico e a imagem. Uma revisão sistemática com 35 estudos e mais de 1.300 pacientes mostrou que a idade média dos pacientes é de cerca de 60 anos e que os exames mais usados são a ressonância magnética, a tomografia e as radiografias, incluindo as dinâmicas, feitas em flexão e extensão1.

Radiografia dinâmica

Mostra o contato ósseo na extensão

Ressonância

Revela edema, bursite e cistos associados

Tomografia

Detalha as alterações ósseas de contato

Na ressonância, sequências sensíveis a líquido e edema, como a STIR, ajudam a mostrar a inflamação entre os processos espinhosos4. Ainda assim, ver as espinhosas próximas no exame não prova que elas causam a dor. Um teste útil é o bloqueio diagnóstico: uma pequena injeção de anestésico no espaço entre os processos espinhosos, guiada por imagem. Se a dor some temporariamente, a origem fica confirmada.

Tratamento

Medidas conservadoras

O tratamento começa de forma conservadora: anti-inflamatórios por períodos curtos, fisioterapia com fortalecimento do abdome e dos músculos do tronco e correção de hábitos que mantêm a coluna em extensão por muito tempo. Na revisão sistemática, essa foi a primeira escolha em cerca de um terço dos pacientes1.

Infiltração

Quando a dor persiste, a infiltração de corticoide e anestésico entre os processos espinhosos, guiada por radioscopia ou tomografia, pode reduzir a inflamação. Ela também confirma o diagnóstico: se a infiltração alivia, o alvo está correto.

Cirurgia

A cirurgia fica reservada para casos que não respondem ao tratamento conservador ou que têm compressão nervosa associada. As técnicas incluem a retirada de parte dos processos espinhosos que se tocam e, quando há estenose, a descompressão do canal. A revisão sistemática concluiu que tanto o tratamento conservador quanto o cirúrgico são opções válidas, mas que faltam ensaios clínicos randomizados para definir qual é melhor em cada situação1.

Nem toda dor lombar central é Baastrup

Dor lombar com febre, perda de peso sem explicação, história de câncer, dor noturna que não melhora com repouso ou trauma recente exige investigação de outras causas antes de atribuir a dor a um processo degenerativo.

Perguntas frequentes

A doença de Baastrup é grave?

Não. Ela não paralisa, não causa dano aos nervos por si só e não é um processo maligno. O problema é a dor, que pode limitar bastante as atividades do dia a dia. Quando há cistos ou estenose associados, a avaliação dos nervos ganha importância.

Ela tem cura?

A alteração anatômica, o contato entre os processos espinhosos, faz parte do envelhecimento da coluna e não desaparece. O objetivo do tratamento é controlar a inflamação e a dor. Muitos pacientes ficam bem por longos períodos com fortalecimento muscular e ajuste de hábitos, e outros precisam de infiltrações periódicas.

Que exercícios ajudam?

Exercícios que fortalecem o abdome e os músculos profundos do tronco ajudam a controlar a extensão excessiva da coluna lombar. Movimentos de flexão suave e alongamento dos flexores do quadril costumam aliviar. Já exercícios que forçam a coluna para trás, como algumas posturas de ioga e certos movimentos de musculação, podem piorar a dor e devem ser adaptados.

Postura e peso fazem diferença?

Fazem. O excesso de peso abdominal puxa a pelve para frente e aumenta a curvatura lombar, o que aproxima os processos espinhosos. Ficar longos períodos em pé com a lombar "arqueada" também aumenta o contato. Pequenos ajustes, como apoiar um pé em um degrau quando precisar ficar em pé, já reduzem a carga.

Quando pensar em cirurgia?

Quando a dor é incapacitante, foi confirmada por bloqueio diagnóstico como vinda do espaço entre as espinhosas e não melhorou com o tratamento conservador e as infiltrações, ou quando há compressão de nervos associada. A decisão sempre é individual.

Conclusão

A doença de Baastrup é uma causa real e frequente de dor lombar, especialmente após os 60 anos. Ela costuma passar despercebida porque divide espaço, no exame, com hérnias, artrose e estenose. Reconhecê-la evita tratamentos direcionados ao alvo errado e abre caminho para soluções simples, como a infiltração guiada, antes de pensar em cirurgia.

Se você tem dor no meio da coluna que piora ao inclinar o corpo para trás, vale uma avaliação que examine a coluna como um todo, e não apenas o laudo da ressonância.

Referências

  1. Meluzio MC, Smakaj A, Perna A, Velluto C, Grillo G, Proietti L, et al. Epidemiology, diagnosis and management of Baastrup's disease: a systematic review. J Neurosurg Sci. 2022;66(6):519-525. Nível 1 · A
    DOI: 10.23736/S0390-5616.21.05428-X
  2. Alonso F, Bryant E, Iwanaga J, Chapman JR, Oskouian RJ, Tubbs RS. Baastrup's Disease: A Comprehensive Review of the Extant Literature. World Neurosurg. 2017;101:331-334. Nível 5 · D
    DOI: 10.1016/j.wneu.2017.02.004
  3. Hatgis J, Granville M, Jacobson RE. Baastrup's Disease, Interspinal Bursitis, and Dorsal Epidural Cysts: Radiologic Evaluation and Impact on Treatment Options. Cureus. 2017;9(7):e1449. Nível 5 · D
    DOI: 10.7759/cureus.1449
  4. Sağtaş E, Kurnaz B, Alver KH, Ufuk F. Baastrup's disease prevalence across various age groups and its association with degenerative changes: insights from STIR sequence in MRI. Eur Spine J. 2024;33(7):2763-2769. Nível 2 · B
    DOI: 10.1007/s00586-024-08280-z

Última revisão desta página: 10 de outubro de 2026. As referências foram verificadas quanto a DOI e ano de publicação na data da revisão.

Dr. Felipe Barreto

Neurocirurgião especializado em cirurgia minimamente invasiva da coluna. Atendimento em São Paulo.

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