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Coluna

Discopatia degenerativa: o laudo assusta, mas o que ele significa de verdade?

Disco desidratado, abaulamento, alterações de Modic. Entenda o que é a degeneração do disco, por que ela aparece em quem não tem dor e quando ela importa.

10 de outubro de 2026 4 min de leitura Dr. Felipe Barreto

"Discopatia degenerativa", "desidratação discal", "abaulamento difuso". Muitos pacientes chegam ao consultório preocupados com essas expressões no laudo da ressonância. Elas soam graves, mas, na maioria das vezes, descrevem algo muito comum: o envelhecimento natural dos discos da coluna.

O que é o disco e por que ele degenera

Entre as vértebras existem os discos intervertebrais, estruturas que funcionam como amortecedores. Cada disco tem um núcleo gelatinoso, rico em água, envolvido por um anel fibroso resistente e separado da vértebra por uma placa de cartilagem1.

Com o tempo, o disco perde água e proteínas que retêm líquido, fica mais baixo e menos elástico, e o anel pode desenvolver pequenas fissuras. Esse processo é a degeneração discal. Ele faz parte do envelhecimento normal, influenciado pela genética, pelas cargas sobre a coluna, pelo tabagismo e por outros fatores2.

O dado que muda tudo: pessoas sem dor também têm

Uma revisão sistemática reuniu 33 estudos com mais de 3.100 pessoas que não tinham dor nas costas e fizeram exames de imagem3. Os resultados mostram como essas alterações são comuns:

Aos 20 anos

37% já têm degeneração discal

Aos 50 anos

80% têm degeneração discal

Aos 80 anos

96% têm degeneração discal

O abaulamento discal também foi frequente em pessoas sem dor, aumentando de 30% aos 20 anos para 84% aos 80. Os autores concluíram que muitas alterações degenerativas fazem parte do envelhecimento normal e não se associam necessariamente a dor3.

Como ler o laudo

Uma ressonância de coluna de um adulto quase sempre mostra alguma degeneração. O laudo descreve a anatomia, mas não diz se aquela alteração é a causa da sua dor. Essa resposta vem da combinação do exame de imagem com a história e o exame físico.

Então a degeneração nunca causa dor?

Causa, em parte das pessoas. Uma meta-análise comparou adultos de até 50 anos com e sem dor lombar e mostrou que achados como degeneração discal, abaulamento, protrusões, extrusões, alterações de Modic e espondilólise foram mais frequentes em quem tinha dor4. Ou seja, em pessoas mais jovens, a degeneração tem maior chance de ter relação com os sintomas.

Quando o próprio disco é a fonte da dor, fala-se em dor discogênica. O disco degenerado pode desenvolver pequenas terminações nervosas e vasos em regiões onde normalmente não existem, e liberar substâncias inflamatórias, o que o torna sensível à carga1. A dor discogênica costuma piorar ao ficar sentado por muito tempo e ao inclinar o tronco para frente.

E as alterações de Modic?

As alterações de Modic são mudanças no osso das vértebras, junto aos discos degenerados, vistas na ressonância. Elas são estudadas como possível causa de dor lombar, mas uma revisão sistemática mostrou que a relação ainda é controversa e que não está definido se a associação é de causa e efeito5.

Tratamento

Não existe tratamento que "reidrate" o disco ou reverta a degeneração. Os tratamentos atuais focam no alívio da dor e na melhora da função2:

Quando a degeneração vira problema neurológico

Dor que irradia para braços ou pernas, formigamento, perda de força, desequilíbrio ao andar ou alteração no controle da urina sugerem compressão de nervos ou da medula, e precisam de avaliação.

Conclusão

A discopatia degenerativa é, na maioria das vezes, um sinal do envelhecimento natural da coluna, presente em grande parte das pessoas sem nenhuma dor. O laudo da ressonância, sozinho, não define o diagnóstico nem o tratamento.

Se você tem dor e um laudo com essas expressões, o mais importante é uma avaliação que relacione o exame com os sintomas. Na maioria dos casos, exercício, hábitos saudáveis e acompanhamento resolvem bem o problema.

Referências

  1. Mohd Isa IL, Teoh SL, Mohd Nor NH, Mokhtar SA. Discogenic Low Back Pain: Anatomy, Pathophysiology and Treatments of Intervertebral Disc Degeneration. Int J Mol Sci. 2022;24(1). Nível 5 · D
    DOI: 10.3390/ijms24010208
  2. Samanta A, Lufkin T, Kraus P. Intervertebral disc degeneration-Current therapeutic options and challenges. Front Public Health. 2023;11:1156749. Nível 5 · D
    DOI: 10.3389/fpubh.2023.1156749
  3. Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B, Bresnahan BW, Chen LE, Deyo RA, et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol. 2015;36(4):811-6. Nível 2 · B
    DOI: 10.3174/ajnr.A4173
  4. Brinjikji W, Diehn FE, Jarvik JG, Carr CM, Kallmes DF, Murad MH, et al. MRI Findings of Disc Degeneration are More Prevalent in Adults with Low Back Pain than in Asymptomatic Controls: A Systematic Review and Meta-Analysis. AJNR Am J Neuroradiol. 2015;36(12):2394-9. Nível 2 · B
    DOI: 10.3174/ajnr.A4498
  5. Hopayian K, Raslan E, Soliman S. The association of modic changes and chronic low back pain: A systematic review. J Orthop. 2023;35:99-106. Nível 2 · B
    DOI: 10.1016/j.jor.2022.11.003
  6. Hayden JA, Ellis J, Ogilvie R, Malmivaara A, van Tulder MW. Exercise therapy for chronic low back pain. Cochrane Database Syst Rev. 2021;9(9):CD009790. Nível 1 · A
    DOI: 10.1002/14651858.CD009790.pub2

Última revisão desta página: 10 de outubro de 2026. As referências foram verificadas quanto a DOI e ano de publicação na data da revisão.

Dr. Felipe Barreto

Neurocirurgião especializado em cirurgia minimamente invasiva da coluna. Atendimento em São Paulo.

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