A imensa maioria das dores nas costas tem causa mecânica: discos, articulações e músculos. Uma pequena parcela, porém, tem origem infecciosa, e esse é um diagnóstico que não pode atrasar. A discite é a infecção do disco intervertebral. Como o processo quase sempre se estende às vértebras vizinhas, o termo mais usado hoje é espondilodiscite.
É uma doença rara, mas sua frequência vem aumentando nas últimas décadas, e ela pode levar a dor intensa, perda de força e até paralisia se não for tratada a tempo1.
Como a infecção chega à coluna
Na maioria dos adultos, a bactéria chega pela corrente sanguínea, a partir de uma infecção em outro local do corpo, como a pele, o trato urinário, um dente ou um cateter. Ela se instala na região mais vascularizada da vértebra, junto ao disco, e daí se espalha. Também pode ocorrer após cirurgias ou procedimentos na coluna.
A bactéria mais comum é o Staphylococcus aureus, e a coluna lombar é a região mais acometida1. Existem ainda formas causadas pela tuberculose e por fungos, com evolução mais lenta.
Quem tem mais risco
- Pessoas com diabetes, doença renal em hemodiálise ou imunidade baixa;
- Usuários de drogas injetáveis;
- Pacientes que passaram por cirurgia ou procedimentos na coluna;
- Idosos e pessoas com outras infecções ativas1,2.
Sintomas
O sintoma principal é a dor nas costas, mas com características diferentes da dor mecânica comum:
- Dor contínua, que não melhora com repouso e costuma piorar à noite;
- Dor localizada, que piora muito com qualquer movimento ou com a percussão sobre a vértebra;
- Febre, calafrios, suor noturno, cansaço e perda de peso, embora a febre esteja ausente em muitos pacientes;
- Nos casos avançados, dor irradiada, fraqueza nas pernas e alteração urinária, por compressão dos nervos ou formação de abscesso.
Combinação que exige investigação
Dor nas costas que piora em repouso e à noite, associada a febre, perda de peso, diabetes, imunidade baixa ou cirurgia recente na coluna, deve ser avaliada rapidamente. Perda de força nas pernas ou alteração no controle da urina é uma urgência.
Como é feito o diagnóstico
Os pilares do diagnóstico precoce são a suspeita clínica, a ressonância magnética e a identificação da bactéria2:
Exames de sangue
Marcadores inflamatórios e hemoculturas
Ressonância
Exame mais sensível para detectar a infecção
Biópsia guiada
Identifica a bactéria e orienta o antibiótico
Identificar o micro-organismo é fundamental. Quando as hemoculturas não mostram a bactéria, faz-se uma biópsia do disco guiada por tomografia, com uma agulha fina. Sempre que possível, o antibiótico é iniciado depois da coleta do material, para não atrapalhar o resultado, a menos que o paciente esteja grave2.
Tratamento
Antibiótico: a base do tratamento
A maioria dos pacientes é tratada com antibióticos por tempo prolongado, inicialmente pela veia, com acompanhamento conjunto do infectologista2. Um ensaio clínico randomizado com 359 pacientes na França mostrou que 6 semanas de antibiótico não foram inferiores a 12 semanas para a cura em um ano na maior parte dos casos3. Situações específicas, como abscessos não drenados ou bactérias resistentes, podem exigir tratamento mais longo.
Durante o tratamento, a resposta é acompanhada pela melhora da dor, pela queda dos marcadores inflamatórios e, quando necessário, por novos exames de imagem. O uso de colete pode ajudar a controlar a dor e proteger a coluna na fase inicial.
Quando operar
A cirurgia é indicada quando há déficit neurológico, abscesso que comprime a medula ou os nervos, instabilidade ou deformidade da coluna, dor que não controla e falha do tratamento com antibiótico2. Ela permite limpar a área infectada, descomprimir os nervos e, se necessário, estabilizar a coluna. Implantes de titânio podem ser usados com segurança mesmo em infecção2.
Há também uma discussão sobre operar mais cedo. Uma meta-análise com quase 11 mil pacientes observou menor mortalidade, menos falhas de tratamento e internação mais curta nos pacientes submetidos à cirurgia precoce em comparação com o tratamento apenas clínico4. Como os estudos incluídos eram observacionais, a decisão continua sendo individual, considerando o estado geral do paciente e a extensão da infecção. Técnicas minimamente invasivas e endoscópicas reduziram a agressividade do procedimento2.
Trabalho em equipe
O tratamento da espondilodiscite é multidisciplinar: cirurgião de coluna, infectologista, radiologista e equipe de reabilitação. A comunicação entre eles é um dos fatores que mais influenciam o resultado1.
Prognóstico
Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, a maioria dos pacientes se recupera. A infecção, no entanto, pode ser grave: a mortalidade chega a até 20% em algumas séries, especialmente em pacientes frágeis e com outras doenças2. Parte dos pacientes mantém dor residual ou rigidez no segmento afetado, que muitas vezes se funde espontaneamente após a cura.
Conclusão
A discite é uma causa rara de dor nas costas, mas que exige atenção. Dor que não melhora com repouso, piora à noite e vem acompanhada de febre, perda de peso ou fatores de risco precisa ser investigada sem demora.
O diagnóstico precoce, com ressonância e identificação da bactéria, permite tratar a maioria dos casos com antibióticos e reservar a cirurgia para situações específicas. Na dúvida, procure avaliação especializada.