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Coluna

Discite e espondilodiscite: quando a dor nas costas é uma infecção

A infecção do disco e das vértebras é rara, mas grave. Saber reconhecer os sinais permite diagnóstico precoce e evita sequelas.

10 de outubro de 2026 4 min de leitura Dr. Felipe Barreto

A imensa maioria das dores nas costas tem causa mecânica: discos, articulações e músculos. Uma pequena parcela, porém, tem origem infecciosa, e esse é um diagnóstico que não pode atrasar. A discite é a infecção do disco intervertebral. Como o processo quase sempre se estende às vértebras vizinhas, o termo mais usado hoje é espondilodiscite.

É uma doença rara, mas sua frequência vem aumentando nas últimas décadas, e ela pode levar a dor intensa, perda de força e até paralisia se não for tratada a tempo1.

Como a infecção chega à coluna

Na maioria dos adultos, a bactéria chega pela corrente sanguínea, a partir de uma infecção em outro local do corpo, como a pele, o trato urinário, um dente ou um cateter. Ela se instala na região mais vascularizada da vértebra, junto ao disco, e daí se espalha. Também pode ocorrer após cirurgias ou procedimentos na coluna.

A bactéria mais comum é o Staphylococcus aureus, e a coluna lombar é a região mais acometida1. Existem ainda formas causadas pela tuberculose e por fungos, com evolução mais lenta.

Quem tem mais risco

Sintomas

O sintoma principal é a dor nas costas, mas com características diferentes da dor mecânica comum:

Combinação que exige investigação

Dor nas costas que piora em repouso e à noite, associada a febre, perda de peso, diabetes, imunidade baixa ou cirurgia recente na coluna, deve ser avaliada rapidamente. Perda de força nas pernas ou alteração no controle da urina é uma urgência.

Como é feito o diagnóstico

Os pilares do diagnóstico precoce são a suspeita clínica, a ressonância magnética e a identificação da bactéria2:

Exames de sangue

Marcadores inflamatórios e hemoculturas

Ressonância

Exame mais sensível para detectar a infecção

Biópsia guiada

Identifica a bactéria e orienta o antibiótico

Identificar o micro-organismo é fundamental. Quando as hemoculturas não mostram a bactéria, faz-se uma biópsia do disco guiada por tomografia, com uma agulha fina. Sempre que possível, o antibiótico é iniciado depois da coleta do material, para não atrapalhar o resultado, a menos que o paciente esteja grave2.

Tratamento

Antibiótico: a base do tratamento

A maioria dos pacientes é tratada com antibióticos por tempo prolongado, inicialmente pela veia, com acompanhamento conjunto do infectologista2. Um ensaio clínico randomizado com 359 pacientes na França mostrou que 6 semanas de antibiótico não foram inferiores a 12 semanas para a cura em um ano na maior parte dos casos3. Situações específicas, como abscessos não drenados ou bactérias resistentes, podem exigir tratamento mais longo.

Durante o tratamento, a resposta é acompanhada pela melhora da dor, pela queda dos marcadores inflamatórios e, quando necessário, por novos exames de imagem. O uso de colete pode ajudar a controlar a dor e proteger a coluna na fase inicial.

Quando operar

A cirurgia é indicada quando há déficit neurológico, abscesso que comprime a medula ou os nervos, instabilidade ou deformidade da coluna, dor que não controla e falha do tratamento com antibiótico2. Ela permite limpar a área infectada, descomprimir os nervos e, se necessário, estabilizar a coluna. Implantes de titânio podem ser usados com segurança mesmo em infecção2.

Há também uma discussão sobre operar mais cedo. Uma meta-análise com quase 11 mil pacientes observou menor mortalidade, menos falhas de tratamento e internação mais curta nos pacientes submetidos à cirurgia precoce em comparação com o tratamento apenas clínico4. Como os estudos incluídos eram observacionais, a decisão continua sendo individual, considerando o estado geral do paciente e a extensão da infecção. Técnicas minimamente invasivas e endoscópicas reduziram a agressividade do procedimento2.

Trabalho em equipe

O tratamento da espondilodiscite é multidisciplinar: cirurgião de coluna, infectologista, radiologista e equipe de reabilitação. A comunicação entre eles é um dos fatores que mais influenciam o resultado1.

Prognóstico

Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, a maioria dos pacientes se recupera. A infecção, no entanto, pode ser grave: a mortalidade chega a até 20% em algumas séries, especialmente em pacientes frágeis e com outras doenças2. Parte dos pacientes mantém dor residual ou rigidez no segmento afetado, que muitas vezes se funde espontaneamente após a cura.

Conclusão

A discite é uma causa rara de dor nas costas, mas que exige atenção. Dor que não melhora com repouso, piora à noite e vem acompanhada de febre, perda de peso ou fatores de risco precisa ser investigada sem demora.

O diagnóstico precoce, com ressonância e identificação da bactéria, permite tratar a maioria dos casos com antibióticos e reservar a cirurgia para situações específicas. Na dúvida, procure avaliação especializada.

Referências

  1. Placide R, Reznicek J. Evaluation and Management of Pyogenic Spondylodiscitis: A Review. J Clin Med. 2025;14(10). Nível 5 · D
    DOI: 10.3390/jcm14103477
  2. Rawall S, Hiatt LA, Rajaram SM, Theiss S. Management of Pyogenic Spondylodiscitis in Adults. J Am Acad Orthop Surg. 2025;33(22):1257-1264. Nível 5 · D
    DOI: 10.5435/JAAOS-D-24-01088
  3. Bernard L, Dinh A, Ghout I, Simo D, Zeller V, Issartel B, et al. Antibiotic treatment for 6 weeks versus 12 weeks in patients with pyogenic vertebral osteomyelitis: an open-label, non-inferiority, randomised, controlled trial. Lancet. 2015;385(9971):875-82. Nível 1 · A
    DOI: 10.1016/S0140-6736(14)61233-2
  4. Thavarajasingam SG, Vemulapalli KV, Vishnu K S, Ponniah HS, Vogel AS, Vardanyan R, et al. Conservative versus early surgical treatment in the management of pyogenic spondylodiscitis: a systematic review and meta-analysis. Sci Rep. 2023;13(1):15647. Nível 2 · B
    DOI: 10.1038/s41598-023-41381-1

Última revisão desta página: 10 de outubro de 2026. As referências foram verificadas quanto a DOI e ano de publicação na data da revisão.

Dr. Felipe Barreto

Neurocirurgião especializado em cirurgia minimamente invasiva da coluna. Atendimento em São Paulo.

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