Nem toda dor ciática vem de uma hérnia de disco. Em alguns pacientes, principalmente depois dos 60 anos, a ressonância mostra uma pequena bolsa arredondada de líquido ao lado do nervo: o cisto sinovial. Ele é menos conhecido do que a hérnia, mas pode causar exatamente os mesmos sintomas.
O que é o cisto sinovial
Na parte de trás de cada vértebra existem duas pequenas articulações, as facetas, que guiam o movimento da coluna. Como qualquer articulação, elas são revestidas por uma membrana que produz líquido lubrificante, chamada membrana sinovial.
Com a artrose, a cápsula da faceta enfraquece e o líquido articular forma uma bolsa que se projeta para fora da articulação. Quando essa bolsa cresce em direção ao canal vertebral, pode encostar na raiz nervosa ou estreitar o espaço do canal1,2.
Os cistos sinoviais aparecem principalmente entre a quarta e a quinta vértebras lombares (L4-L5), o nível com maior mobilidade da coluna lombar, e são mais comuns a partir da sexta década de vida1,2.
Um marcador de instabilidade
Uma meta-análise com 17 estudos e 824 casos encontrou, no mesmo nível do cisto, artrose facetária em cerca de 89% dos pacientes, degeneração do disco em 49% e escorregamento vertebral (espondilolistese degenerativa) em 42,5%3. O cisto costuma ser um sinal de que aquele segmento da coluna se movimenta mais do que deveria.
Sintomas
Muitos cistos são achados de exame e não causam sintoma algum. Quando comprimem estruturas nervosas, os sintomas mais comuns são1,2:
- Dor irradiada para a perna, semelhante à ciática, às vezes com formigamento e dormência;
- Claudicação neurogênica: dor, peso ou cansaço nas pernas ao caminhar ou ficar em pé, que melhora ao sentar ou inclinar o corpo para frente;
- Dor lombar, frequentemente associada à artrose facetária;
- Em casos mais avançados, perda de força no pé ou na perna.
Uma característica que chama atenção é a possibilidade de piora súbita: um sangramento dentro do cisto pode aumentar seu volume rapidamente e intensificar a dor de um dia para o outro.
Diagnóstico
A ressonância magnética é o exame de escolha. Ela mostra o cisto, sua relação com a faceta e o grau de compressão do nervo1. Como o cisto costuma conviver com instabilidade, as radiografias dinâmicas, feitas com o tronco inclinado para frente e para trás, são parte importante da avaliação. Elas mostram se a vértebra escorrega com o movimento, informação que muda o planejamento do tratamento.
Ressonância
Mostra o cisto e a compressão do nervo
Raio-X dinâmico
Revela instabilidade e escorregamento
Exame clínico
Confirma qual raiz está afetada
Tratamento
Conservador
Quando os sintomas são leves e não há perda de força, o tratamento começa com medicações para dor, fisioterapia e ajuste de atividades. Alguns cistos diminuem espontaneamente com o tempo.
Procedimentos percutâneos
Uma opção minimamente invasiva é a injeção guiada por imagem na articulação facetária, com corticoide, às vezes associada à ruptura do cisto com pressão do líquido injetado. Um estudo populacional de longo prazo mostrou alívio duradouro da dor em parte dos pacientes tratados dessa forma4. Na prática, o procedimento funciona melhor em cistos menores e em pacientes sem instabilidade importante, e muitos pacientes acabam precisando de cirurgia mais tarde. Por isso, a escolha deve ser individualizada.
Cirurgia
A cirurgia é indicada quando há perda de força, dor incapacitante ou falha do tratamento conservador. Ela consiste na retirada do cisto e na descompressão do nervo, hoje possível com técnicas minimamente invasivas e até endoscópicas1.
A grande discussão é se é preciso também fixar o segmento (artrodese). Uma meta-análise de 2023 comparou a descompressão isolada com a descompressão associada à fusão: a fusão se associou a menos recidiva do cisto e menos reoperações, enquanto a melhora dos sintomas foi boa nos dois grupos5. Pacientes com espondilolistese tendem a evoluir com progressão do escorregamento após descompressão isolada, enquanto os que recebem fusão raramente apresentam esse problema2,3.
Descomprimir ou fixar?
Na minha prática, a decisão depende principalmente de haver ou não instabilidade nas radiografias dinâmicas. Sem instabilidade, a descompressão minimamente invasiva costuma ser suficiente. Com escorregamento ou movimento anormal, estabilizar o segmento reduz o risco de o problema voltar.
Sinais de alerta
Fraqueza progressiva na perna, pé caído, dormência na região genital ou alteração no controle da urina ou das fezes exigem avaliação imediata.
Perguntas frequentes
O cisto sinovial pode voltar?
Pode. A recidiva é mais comum quando a causa de base, a instabilidade da faceta, não é tratada1,5. Esse é um dos motivos pelos quais a avaliação dinâmica da coluna é tão importante antes da cirurgia.
O cisto sinovial é um tumor?
Não. É uma estrutura benigna formada por líquido articular, ligada ao desgaste da articulação. Não se transforma em câncer.
Conclusão
O cisto sinovial é uma causa importante, e às vezes esquecida, de dor ciática e de dor ao caminhar em pessoas acima dos 60 anos. Mais do que o cisto em si, o que define o tratamento é a saúde do segmento de onde ele nasce. Por isso, a avaliação deve incluir não só a ressonância, mas também o estudo da estabilidade da coluna.
Com o diagnóstico correto, a maioria dos pacientes tem bom resultado, seja com tratamento conservador, procedimento percutâneo ou cirurgia minimamente invasiva.