Voltar ao site
Coluna

Cisto sinovial na coluna: quando uma "bolsa de líquido" comprime o nervo

O cisto sinovial nasce da articulação facetária desgastada e pode causar dor na perna como uma hérnia de disco. Veja como é o diagnóstico e quais são as opções de tratamento.

10 de outubro de 2026 4 min de leitura Dr. Felipe Barreto

Nem toda dor ciática vem de uma hérnia de disco. Em alguns pacientes, principalmente depois dos 60 anos, a ressonância mostra uma pequena bolsa arredondada de líquido ao lado do nervo: o cisto sinovial. Ele é menos conhecido do que a hérnia, mas pode causar exatamente os mesmos sintomas.

O que é o cisto sinovial

Na parte de trás de cada vértebra existem duas pequenas articulações, as facetas, que guiam o movimento da coluna. Como qualquer articulação, elas são revestidas por uma membrana que produz líquido lubrificante, chamada membrana sinovial.

Com a artrose, a cápsula da faceta enfraquece e o líquido articular forma uma bolsa que se projeta para fora da articulação. Quando essa bolsa cresce em direção ao canal vertebral, pode encostar na raiz nervosa ou estreitar o espaço do canal1,2.

Os cistos sinoviais aparecem principalmente entre a quarta e a quinta vértebras lombares (L4-L5), o nível com maior mobilidade da coluna lombar, e são mais comuns a partir da sexta década de vida1,2.

Um marcador de instabilidade

Uma meta-análise com 17 estudos e 824 casos encontrou, no mesmo nível do cisto, artrose facetária em cerca de 89% dos pacientes, degeneração do disco em 49% e escorregamento vertebral (espondilolistese degenerativa) em 42,5%3. O cisto costuma ser um sinal de que aquele segmento da coluna se movimenta mais do que deveria.

Sintomas

Muitos cistos são achados de exame e não causam sintoma algum. Quando comprimem estruturas nervosas, os sintomas mais comuns são1,2:

Uma característica que chama atenção é a possibilidade de piora súbita: um sangramento dentro do cisto pode aumentar seu volume rapidamente e intensificar a dor de um dia para o outro.

Diagnóstico

A ressonância magnética é o exame de escolha. Ela mostra o cisto, sua relação com a faceta e o grau de compressão do nervo1. Como o cisto costuma conviver com instabilidade, as radiografias dinâmicas, feitas com o tronco inclinado para frente e para trás, são parte importante da avaliação. Elas mostram se a vértebra escorrega com o movimento, informação que muda o planejamento do tratamento.

Ressonância

Mostra o cisto e a compressão do nervo

Raio-X dinâmico

Revela instabilidade e escorregamento

Exame clínico

Confirma qual raiz está afetada

Tratamento

Conservador

Quando os sintomas são leves e não há perda de força, o tratamento começa com medicações para dor, fisioterapia e ajuste de atividades. Alguns cistos diminuem espontaneamente com o tempo.

Procedimentos percutâneos

Uma opção minimamente invasiva é a injeção guiada por imagem na articulação facetária, com corticoide, às vezes associada à ruptura do cisto com pressão do líquido injetado. Um estudo populacional de longo prazo mostrou alívio duradouro da dor em parte dos pacientes tratados dessa forma4. Na prática, o procedimento funciona melhor em cistos menores e em pacientes sem instabilidade importante, e muitos pacientes acabam precisando de cirurgia mais tarde. Por isso, a escolha deve ser individualizada.

Cirurgia

A cirurgia é indicada quando há perda de força, dor incapacitante ou falha do tratamento conservador. Ela consiste na retirada do cisto e na descompressão do nervo, hoje possível com técnicas minimamente invasivas e até endoscópicas1.

A grande discussão é se é preciso também fixar o segmento (artrodese). Uma meta-análise de 2023 comparou a descompressão isolada com a descompressão associada à fusão: a fusão se associou a menos recidiva do cisto e menos reoperações, enquanto a melhora dos sintomas foi boa nos dois grupos5. Pacientes com espondilolistese tendem a evoluir com progressão do escorregamento após descompressão isolada, enquanto os que recebem fusão raramente apresentam esse problema2,3.

Descomprimir ou fixar?

Na minha prática, a decisão depende principalmente de haver ou não instabilidade nas radiografias dinâmicas. Sem instabilidade, a descompressão minimamente invasiva costuma ser suficiente. Com escorregamento ou movimento anormal, estabilizar o segmento reduz o risco de o problema voltar.

Sinais de alerta

Fraqueza progressiva na perna, pé caído, dormência na região genital ou alteração no controle da urina ou das fezes exigem avaliação imediata.

Perguntas frequentes

O cisto sinovial pode voltar?

Pode. A recidiva é mais comum quando a causa de base, a instabilidade da faceta, não é tratada1,5. Esse é um dos motivos pelos quais a avaliação dinâmica da coluna é tão importante antes da cirurgia.

O cisto sinovial é um tumor?

Não. É uma estrutura benigna formada por líquido articular, ligada ao desgaste da articulação. Não se transforma em câncer.

Conclusão

O cisto sinovial é uma causa importante, e às vezes esquecida, de dor ciática e de dor ao caminhar em pessoas acima dos 60 anos. Mais do que o cisto em si, o que define o tratamento é a saúde do segmento de onde ele nasce. Por isso, a avaliação deve incluir não só a ressonância, mas também o estudo da estabilidade da coluna.

Com o diagnóstico correto, a maioria dos pacientes tem bom resultado, seja com tratamento conservador, procedimento percutâneo ou cirurgia minimamente invasiva.

Referências

  1. Khan AM, Girardi F. Spinal lumbar synovial cysts. Diagnosis and management challenge. Eur Spine J. 2006;15(8):1176-82. Nível 5 · D
    DOI: 10.1007/s00586-005-0009-4
  2. Epstein NE. Lumbar synovial cysts: a review of diagnosis, surgical management, and outcome assessment. J Spinal Disord Tech. 2004;17(4):321-5. Nível 5 · D
    DOI: 10.1097/01.bsd.0000096267.75190.eb
  3. Ramhmdani S, Ishida W, Perdomo-Pantoja A, Witham TF, Lo SL, Bydon A. Synovial Cyst as a Marker for Lumbar Instability: A Systematic Review and Meta-Analysis. World Neurosurg. 2019;122:e1059-e1068. Nível 2 · B
    DOI: 10.1016/j.wneu.2018.10.228
  4. Chazen JL. Long-term pain relief following percutaneous steroid treatment of spinal synovial cysts: a population-based cohort study. J Neurointerv Surg. 2020;12(9):836. Nível 5 · D
    DOI: 10.1136/neurintsurg-2020-016322
  5. Benato A, Menna G, Rapisarda A, Polli FM, D'Ercole M, Izzo A, et al. Decompression with or without Fusion for Lumbar Synovial Cysts-A Systematic Review and Meta-Analysis. J Clin Med. 2023;12(7). Nível 2 · B
    DOI: 10.3390/jcm12072664

Última revisão desta página: 10 de outubro de 2026. As referências foram verificadas quanto a DOI e ano de publicação na data da revisão.

Dr. Felipe Barreto

Neurocirurgião especializado em cirurgia minimamente invasiva da coluna. Atendimento em São Paulo.

Agendar consulta