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Coluna

Ciática e lombociatalgia: por que a dor desce pela perna e como tratar

O que provoca a dor no trajeto do nervo ciático, quais sinais exigem avaliação rápida e o que a ciência mostra sobre fisioterapia, infiltração e cirurgia.

10 de outubro de 2026 6 min de leitura Dr. Felipe Barreto

Uma dor que começa na região lombar e "corre" pela nádega, desce pela parte de trás da coxa e chega à perna ou ao pé é uma das queixas mais comuns em consultório de coluna. Quando a dor fica só na perna, chamamos de ciática; quando vem junto com dor lombar, o nome técnico é lombociatalgia. Os dois termos descrevem a mesma origem: uma irritação do nervo ciático ou das raízes nervosas que o formam.

A boa notícia é que a maioria dos casos melhora sem cirurgia, em semanas ou poucos meses1,2. Mas há situações em que esperar é um erro, e saber reconhecê-las faz diferença.

O que é o nervo ciático e por que ele dói

O nervo ciático é o mais longo e calibroso do corpo. Ele é formado pela união de raízes nervosas que saem da coluna lombar baixa e do sacro (principalmente L4, L5 e S1), atravessa a região glútea e desce pela parte posterior da coxa até se dividir acima do joelho.

Na grande maioria das vezes, a ciática não nasce no nervo em si, mas na raiz nervosa, ainda dentro da coluna. A causa mais frequente é a hérnia de disco lombar: parte do material interno do disco extravasa e encosta na raiz. Além da compressão mecânica, o material do disco libera substâncias inflamatórias que irritam o nervo, o que explica por que a dor pode ser intensa mesmo com hérnias pequenas1,2.

Outras causas incluem:

Ciática não é diagnóstico, é sintoma

"Ciática" descreve o trajeto da dor, não a causa. Duas pessoas com a mesma dor na perna podem ter problemas completamente diferentes: uma hérnia aguda em um jovem de 35 anos e uma estenose degenerativa em um paciente de 70 têm tratamentos e prognósticos distintos.

Quem tem mais risco

Uma revisão que reuniu 15 revisões sistemáticas e 134 estudos de coorte identificou fatores associados a maior risco de dor lombar e ciática: idade mais avançada, tabagismo e saúde geral ruim, exposição física da coluna (como vibração e carga repetida) e estresse psicológico, incluindo depressão3. Vários desses fatores são modificáveis, o que reforça o papel do estilo de vida na prevenção de novos episódios.

Como reconhecer: os sintomas típicos

A dor da ciática costuma ter características que ajudam a diferenciá-la de uma dor muscular comum:

O exame físico confirma a suspeita. Testes simples, como elevar a perna estendida com o paciente deitado, reproduzem a dor quando a raiz está irritada. A avaliação de força, sensibilidade e reflexos mostra qual raiz está envolvida e se há perda neurológica.

Quando procurar atendimento imediato

Perda de força progressiva no pé ou na perna (pé "caindo" ao andar), dormência na região genital ou entre as nádegas, dificuldade para urinar ou perda do controle da urina ou das fezes. Esses sinais podem indicar compressão grave das raízes nervosas (síndrome da cauda equina) e exigem avaliação de urgência no mesmo dia.

Precisa de ressonância?

Na maioria dos casos, não de imediato. Diretrizes e revisões recomendam que, sem sinais de alerta, o diagnóstico inicial seja clínico e que a ressonância magnética fique reservada para quem não melhora após algumas semanas de tratamento, para quem tem déficit neurológico ou quando a cirurgia passa a ser considerada2.

O motivo é prático: alterações de disco aparecem em muitos exames de pessoas sem dor, e um laudo cheio de achados pode gerar ansiedade e intervenções desnecessárias. A imagem precisa ser interpretada junto com o exame físico. O que importa é se a alteração vista explica exatamente a dor que o paciente sente.

O que funciona no tratamento

Tratamento conservador

O primeiro passo inclui orientação, controle da dor e manutenção das atividades dentro do tolerável. Repouso absoluto prolongado não acelera a recuperação. Medicações são usadas por períodos curtos e escolhidas caso a caso.

A fisioterapia é muito prescrita como primeira linha. Uma revisão sistemática com 18 ensaios clínicos e quase 2.700 participantes, porém, encontrou evidência de baixa qualidade e efeito pequeno ou incerto sobre a dor quando comparada a outras intervenções4. Na prática, isso não significa que exercício não sirva: significa que o tipo de exercício, a individualização e a expectativa realista importam mais do que a simples indicação de "fazer fisioterapia".

Infiltração epidural

A infiltração com corticoide no espaço epidural, guiada por imagem, leva o anti-inflamatório para perto da raiz irritada. Uma revisão Cochrane mostrou redução pequena da dor na perna e da incapacidade no curto prazo em comparação com placebo, com eventos adversos geralmente leves5. Ela é útil principalmente para atravessar a fase mais dolorosa enquanto a evolução natural faz o seu trabalho, e em pacientes que querem ou precisam evitar a cirurgia.

Cirurgia

A cirurgia, geralmente uma discectomia ou uma descompressão minimamente invasiva, remove o fragmento que comprime a raiz. Uma meta-análise de ensaios randomizados publicada no BMJ comparou a cirurgia ao tratamento não cirúrgico: a discectomia reduziu a dor na perna e a incapacidade mais rapidamente, com o maior benefício nas primeiras semanas e meses, e a diferença entre os grupos diminuiu ao longo do primeiro ano6.

Conservador

Primeira escolha sem déficit neurológico

Infiltração

Alívio de curto prazo na fase aguda

Cirurgia

Recuperação mais rápida em casos selecionados

Em outras palavras, para quem não tem déficit neurológico, operar é uma escolha sobre velocidade de recuperação, e não a única forma de melhorar. A cirurgia é indicada quando há perda de força significativa ou progressiva, síndrome da cauda equina, ou dor incapacitante que persiste após um período adequado de tratamento conservador, em geral de 6 a 12 semanas, especialmente quando ela compromete o trabalho e a vida diária.

Uma decisão compartilhada

Na minha prática, a conversa sobre cirurgia leva em conta a intensidade da dor, o tempo de sintomas, o impacto no trabalho e o que o paciente valoriza. Duas pessoas com a mesma ressonância podem fazer escolhas diferentes, e ambas podem estar certas.

Conclusão

A ciática assusta pela intensidade, mas tem, na maioria dos casos, evolução favorável. O caminho mais seguro é um diagnóstico clínico bem feito, atenção aos sinais de alerta e um plano de tratamento em etapas: controle da dor e retorno às atividades, infiltração quando a dor impede a reabilitação, e cirurgia para quem tem perda neurológica ou dor que não cede.

Se a dor desce pela perna há mais de algumas semanas, ou se você notar fraqueza ou alteração urinária, procure avaliação especializada. Quanto antes a causa for identificada, mais opções de tratamento estarão disponíveis.

Referências

  1. Ropper AH, Zafonte RD. Sciatica. N Engl J Med. 2015;372(13):1240-8. Nível 5 · D
    DOI: 10.1056/NEJMra1410151
  2. Jensen RK, Kongsted A, Kjaer P, Koes B. Diagnosis and treatment of sciatica. BMJ. 2019;367:l6273. Nível 5 · D
    DOI: 10.1136/bmj.l6273
  3. Parreira P, Maher CG, Steffens D, Hancock MJ, Ferreira ML. Risk factors for low back pain and sciatica: an umbrella review. Spine J. 2018;18(9):1715-1721. Nível 2 · B
    DOI: 10.1016/j.spinee.2018.05.018
  4. Dove L, Jones G, Kelsey LA, Cairns MC, Schmid AB. How effective are physiotherapy interventions in treating people with sciatica? A systematic review and meta-analysis. Eur Spine J. 2023;32(2):517-533. Nível 1 · A
    DOI: 10.1007/s00586-022-07356-y
  5. Oliveira CB, Maher CG, Ferreira ML, Hancock MJ, Oliveira VC, McLachlan AJ, et al. Epidural Corticosteroid Injections for Sciatica: An Abridged Cochrane Systematic Review and Meta-Analysis. Spine (Phila Pa 1976). 2020;45(21):E1405-E1415. Nível 1 · A
    DOI: 10.1097/BRS.0000000000003651
  6. Liu C, Ferreira GE, Abdel Shaheed C, Chen Q, Harris IA, Bailey CS, et al. Surgical versus non-surgical treatment for sciatica: systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ. 2023;381:e070730. Nível 1 · A
    DOI: 10.1136/bmj-2022-070730

Última revisão desta página: 10 de outubro de 2026. As referências foram verificadas quanto a DOI e ano de publicação na data da revisão.

Dr. Felipe Barreto

Neurocirurgião especializado em cirurgia minimamente invasiva da coluna. Atendimento em São Paulo.

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