Uma dor que começa no pescoço, passa pela escápula ou pelo ombro e desce pelo braço até a mão, às vezes com formigamento nos dedos, é a queixa típica da cervicobraquialgia. O termo descreve o trajeto da dor. Na maior parte das vezes, a causa é a irritação de uma raiz nervosa na coluna cervical, condição que os médicos chamam de radiculopatia cervical.
É uma situação comum, que costuma surgir por volta dos 40 a 50 anos, e que na maioria dos casos melhora sem cirurgia1,2.
Por que a dor desce para o braço
Da coluna cervical saem as raízes nervosas que formam os nervos do braço. Cada raiz é responsável pela sensibilidade de uma faixa da pele e pela força de grupos musculares específicos. Quando uma raiz é comprimida ou inflamada, a dor aparece no território que ela inerva, por isso o padrão da dor ajuda a identificar o nível afetado.
As causas mais frequentes são:
- Hérnia de disco cervical, mais comum em pessoas mais jovens;
- Espondilose: o desgaste do disco e a formação de osteófitos ("bico de papagaio") que estreitam o forame por onde a raiz sai.
Em um grande estudo populacional nos Estados Unidos, a hérnia de disco isolada foi responsável por cerca de 22% dos casos, e a espondilose, associada ou não ao disco, por 68%. As raízes mais acometidas foram a C7 e a C61. Além da compressão, substâncias inflamatórias liberadas pelo disco lesionado também irritam o nervo2.
Sintomas
- Dor no pescoço que irradia para a escápula, o ombro, o braço e, às vezes, a mão;
- Formigamento ou dormência em dedos específicos;
- Fraqueza em determinados movimentos, como estender o cotovelo ou segurar objetos;
- Piora ao inclinar ou girar a cabeça para o lado da dor;
- Alívio ao apoiar a mão sobre a cabeça, posição que reduz a tensão na raiz.
Sinais de compressão da medula
Desequilíbrio ao andar, perda de destreza nas mãos (dificuldade para abotoar camisa ou escrever), formigamento nas duas mãos ou alteração no controle da urina sugerem compressão da medula cervical, a mielopatia. Essa situação é diferente da radiculopatia e precisa de avaliação rápida.
Diagnóstico
A história clínica e o exame físico costumam ser suficientes para o diagnóstico inicial. O exame avalia força, sensibilidade e reflexos e inclui testes provocativos. O mais conhecido é o teste de Spurling: com a cabeça inclinada e levemente pressionada, a dor reproduzida no braço indica irritação da raiz. Uma revisão sistemática mostrou que esse teste tem alta especificidade, ou seja, quando é positivo, a chance de radiculopatia é grande3.
A ressonância magnética confirma a causa e é indicada quando há déficit neurológico, quando a dor não melhora após algumas semanas ou quando se considera intervenção. Como alterações degenerativas são muito comuns em exames de pessoas sem sintomas, o achado de imagem precisa corresponder aos sintomas do paciente2.
Nem toda dor no braço vem do pescoço
Problemas no ombro, a síndrome do túnel do carpo e outras compressões de nervos no braço podem imitar a radiculopatia cervical. Em casos de dúvida, a eletroneuromiografia ajuda a localizar onde o nervo está sendo comprimido.
Tratamento
A maioria melhora sem cirurgia
A radiculopatia cervical tende a ser autolimitada: entre 75% e 90% dos pacientes melhoram com tratamento não cirúrgico2. No estudo populacional citado, 90% dos pacientes estavam sem sintomas ou com incapacidade leve ao final do acompanhamento1. Por isso, sem fraqueza importante ou sinais de mielopatia, o tratamento inicial é conservador por pelo menos seis semanas2,4.
Controle da dor
Medicações por curto período
Exercícios
Reduzem dor e melhoram a função
Infiltração
Alívio na fase mais dolorosa
O exercício terapêutico tem respaldo: uma meta-análise com 10 ensaios clínicos e 871 pacientes mostrou redução da dor e melhora da função com programas de exercício, isolados ou combinados ao tratamento convencional5. Outras medidas, como acupuntura, manipulação e laser de baixa potência, têm evidência de certeza muito baixa e efeito de curto prazo6.
Infiltrações guiadas por imagem, que levam corticoide para perto da raiz inflamada, podem ser usadas quando a dor impede a reabilitação.
Quando a cirurgia é indicada
A cirurgia é considerada quando há fraqueza significativa ou progressiva, sinais de mielopatia, ou dor incapacitante que persiste apesar do tratamento conservador adequado2,4. As principais técnicas são a discectomia com artrodese por via anterior, a artroplastia cervical (prótese de disco) e a foraminotomia por via posterior, inclusive por técnica endoscópica. A escolha depende da causa da compressão, do número de níveis afetados e das características de cada paciente.
Conclusão
A cervicobraquialgia é dolorosa e preocupa, mas tem, na maioria dos casos, evolução favorável. O caminho passa por um diagnóstico clínico cuidadoso, controle da dor, exercícios orientados e atenção aos sinais de alerta. A cirurgia é reservada para quem tem perda de força, compressão da medula ou dor que não cede.
Se a dor no braço dura mais de algumas semanas, ou se você notar fraqueza ou perda de habilidade nas mãos, procure avaliação especializada.