Nem toda dor de cabeça nasce na cabeça. Na cefaleia cervicogênica, a origem está na coluna cervical, especialmente nas articulações e nos nervos da parte alta do pescoço. A dor é sentida na cabeça porque os nervos dessa região se conectam, no tronco cerebral, aos mesmos circuitos que conduzem a sensibilidade do rosto e da cabeça1.
Ela é frequentemente confundida com enxaqueca ou com cefaleia tensional, e passa anos sem diagnóstico correto. Por isso especialistas defendem que é importante demais para ficar sem diagnóstico2.
Como ela se manifesta
As características clássicas são1:
- Dor de um lado só, sempre do mesmo lado;
- Começa na nuca e se espalha para a região da testa, da têmpora ou ao redor do olho;
- Intensidade leve a moderada, em pressão ou latejante;
- Rigidez e redução da mobilidade do pescoço;
- Pode ser desencadeada por movimentos do pescoço, posturas mantidas ou pressão sobre pontos da nuca;
- História de trauma cervical, como o "efeito chicote" em acidentes de carro, é comum.
Ela pode vir acompanhada de náusea, sensibilidade à luz e ao som e tontura, sintomas que lembram a enxaqueca e confundem o diagnóstico1.
Como diferenciar da enxaqueca
O exame físico é a principal ferramenta. Uma meta-análise com 62 estudos comparou pessoas com enxaqueca, com cefaleia cervicogênica e sem dor de cabeça. Os pacientes com cefaleia cervicogênica apresentaram menor rotação no teste de flexão-rotação, que avalia a mobilidade da primeira e da segunda vértebras cervicais, e menor força dos músculos flexores do pescoço3.
Pesquisas mostram que nenhum achado isolado é confiável. O que identifica a cefaleia cervicogênica é um padrão: mobilidade reduzida, sinais nas articulações cervicais altas e controle deficiente dos músculos profundos do pescoço. Esse padrão foi validado contra bloqueios anestésicos diagnósticos e diferencia a cefaleia cervicogênica da enxaqueca e da cefaleia tensional4.
Mobilidade
Rotação do pescoço reduzida
Articulações
Dor ao examinar C1, C2 e C3
Músculos
Flexores profundos fracos
O bloqueio diagnóstico
Em casos de dúvida, o bloqueio anestésico das articulações ou dos nervos da região cervical alta, feito com orientação por imagem, é o teste mais objetivo. Se a dor de cabeça desaparece enquanto o anestésico age, a origem cervical fica confirmada1,4.
Dor de cabeça que precisa de atenção imediata
Dor de cabeça súbita e muito intensa ("a pior da vida"), dor associada a febre e rigidez de nuca, alteração da visão, fraqueza, confusão, ou dor de cabeça nova após os 50 anos devem ser avaliadas com urgência. Nesses casos, a investigação vem antes de qualquer hipótese cervical.
Tratamento
Fisioterapia e exercícios: primeira linha
O tratamento conservador é a primeira escolha. Uma revisão sistemática com 20 ensaios clínicos e 1.439 pacientes avaliou terapia manual e exercícios, como mobilização, manipulação, tratamento de pontos-gatilho e exercícios para os músculos profundos do pescoço e da escápula. Essas abordagens mostraram redução da intensidade e da frequência das dores de cabeça, embora a qualidade da evidência ainda seja limitada5. Um grande ensaio clínico multicêntrico confirmou o benefício da combinação de terapia manual e exercício4.
Bloqueios e radiofrequência
Quando a fisioterapia não basta, os bloqueios anestésicos podem ter também efeito terapêutico. Nos casos em que o bloqueio confirma a articulação como fonte da dor, a radiofrequência, que interrompe a condução da dor pelos pequenos nervos da articulação, pode oferecer alívio mais duradouro1.
Cirurgia
Raramente indicada. Pode ser considerada quando há uma causa estrutural clara, como compressão de raiz nervosa alta ou instabilidade, em casos selecionados que não responderam ao tratamento conservador1.
Hábitos que ajudam
Pausas regulares no trabalho em computador, tela na altura dos olhos, evitar ficar muito tempo com o pescoço inclinado para o celular e manter os músculos do pescoço e da escápula fortalecidos são medidas simples que reduzem as crises em muitos pacientes.
Conclusão
A cefaleia cervicogênica é uma dor de cabeça real, com origem no pescoço, e tem tratamento específico. O diagnóstico depende de um exame físico cuidadoso, que avalie a coluna cervical, e, quando necessário, de um bloqueio diagnóstico.
Se a sua dor de cabeça é sempre do mesmo lado, começa na nuca e piora com movimentos do pescoço, vale uma avaliação da coluna cervical. Tratar a origem da dor costuma trazer mais resultado do que apenas tratar os sintomas.