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Cirurgia Cervical

Artroplastia Cervical vs. Artrodese: Por Que a Escolha Importa — Especialmente para Pacientes Jovens

Evidências de mais de 4.500 pacientes em ensaios clínicos randomizados mostram que preservar o movimento pode mudar o prognóstico a longo prazo

16 de julho de 2026 8 min de leitura Dr. Felipe Barreto

Quando uma hérnia cervical comprime raízes nervosas ou a medula espinal e não responde ao tratamento conservador, a cirurgia costuma ser necessária. Por décadas, a artrodese cervical anterior — conhecida pela sigla em inglês ACDF (Anterior Cervical Discectomy and Fusion) — foi o padrão-ouro. Ela funciona bem e alivia a dor, mas tem um preço: eliminar permanentemente o movimento de um ou mais segmentos da coluna cervical. Para pacientes jovens, essa consequência pode se traduzir em décadas de esforço compensatório sobre os discos vizinhos — e, eventualmente, em uma segunda cirurgia.

A artroplastia cervical total (CDA — Cervical Disc Arthroplasty) surge como alternativa que preserva o movimento. Uma geração de ensaios clínicos randomizados aprovados pela FDA e múltiplas meta-análises acumuladas na última década permitem hoje comparar as duas técnicas com rigor científico. Os resultados são reveladores.

O que é a Artroplastia Cervical Total?

A artroplastia cervical consiste na substituição do disco intervertebral doente por uma prótese artificial que mantém a capacidade de movimento do segmento operado. A abordagem cirúrgica é a mesma da artrodese — pela frente do pescoço —, o que significa que o neurocirurgião remove o disco degenerado, descomprime os nervos e a medula com a mesma precisão. A diferença está no implante final: em vez de um cage de fusão e enxerto ósseo, posiciona-se uma prótese discal móvel.

Prótese articulada

Substitui o disco e permite flexão, extensão e rotação no segmento operado

Mesma via de acesso

Abordagem anterior ao pescoço, idêntica à artrodese — sem nova incisão

Aprovada pela FDA

Múltiplos dispositivos aprovados em ensaios clínicos multicêntricos nos EUA

As próteses disponíveis atualmente variam quanto ao grau de restrição de movimento (constraint): dispositivos semiconstrangidos e não constrangidos (unconstrained) reproduzem com mais fidelidade a cinemática natural do disco, conferindo maior proteção ao segmento adjacente.

O Problema Central: Doença de Nível Adjacente

A doença de nível adjacente (DNA — Adjacent Level Disease ou ALD) é a complicação tardia mais temida da artrodese cervical. Quando um segmento é fundido, os discos imediatamente acima e abaixo precisam compensar a perda de mobilidade, absorvendo cargas maiores e sofrendo desgaste acelerado. Com o tempo, surgem novos discos herniados, estenose foraminal ou instabilidade nesses níveis — e o paciente pode necessitar de nova intervenção.

A Matemática do Tempo

Em uma pessoa de 35 anos operada com artrodese cervical, 40 ou 50 anos de esforço compensatório sobre os discos vizinhos é um cenário real. Quanto mais jovem o paciente, maior o risco acumulado de doença de nível adjacente ao longo da vida — tornando a preservação do movimento ainda mais estratégica.

A lógica biomecânica da artroplastia é justamente interromper esse ciclo: se o segmento operado continua se movendo fisiologicamente, a carga sobre os discos vizinhos se mantém próxima ao normal, reduzindo a degeneração acelerada.

O que Dizem os Estudos?

A mais abrangente análise publicada até hoje é uma meta-análise de 2025, conduzida na Universidade de Washington (St. Louis), que reuniu 35 estudos derivados de 25 ensaios clínicos randomizados — do total, 4.530 pacientes. Os resultados, publicados no Journal of Neurosurgery: Spine, são inequívocos:

25
Ensaios clínicos randomizados incluídos na meta-análise de 2025
4.530
Pacientes analisados (ACDF + CDA combinados)
45 anos
Idade média dos pacientes — exatamente a faixa jovem-adulta
10 anos
Seguimento máximo disponível nos estudos de longo prazo

A CDA demonstrou taxas significativamente menores de doença de nível adjacente, menor taxa de reoperação e maior amplitude de movimento no nível operado. Outra meta-análise específica para doença de nível adjacente, com 19 estudos e 4.655 pacientes, confirmou: ACDF apresentou 19,7% de degeneração adjacente versus 14,4% na CDA, e taxa de reoperação por doença adjacente de 6,1% contra 3,1% — diferenças estatisticamente significativas.

Dados de 10 Anos

Uma revisão sistemática de 2024 focada no seguimento de 10 anos mostrou que a CDA gerou significativamente menos cirurgias secundárias e menos eventos adversos em comparação à ACDF. Embora as diferenças em escores funcionais (NDI e VAS) não tenham atingido diferença clinicamente mínima importante, a diferença em reoperações foi clinicamente relevante.

Ensaios Clínicos FDA: Dois Níveis sob Escrutínio Rigoroso

Os estudos multicêntricos conduzidos para aprovação pela FDA oferecem os dados de mais alta qualidade, pois têm metodologia rígida, acompanhamento sistemático e independência do fabricante. Dois ensaios com seguimento de 5 a 7 anos em cirurgias de dois níveis merecem destaque:

Esses números são especialmente importantes para cirurgias de dois níveis, que geram mais restrição de movimento e, portanto, mais carga sobre os segmentos adjacentes do que cirurgias de nível único.

CDA vs. ACDF: Comparação Direta

Parâmetro ACDF (Artrodese) CDA (Artroplastia)
Preservação do movimento ❌ Eliminado no nível operado ✅ Mantido
Taxa de doença de nível adjacente Maior (~19,7%) Menor (~14,4%)
Taxa de reoperação por DAN Maior (~6,1%) Menor (~3,1%)
Reoperação geral (2 níveis, 5–7 anos) 14–16% 4%
Sucesso neurológico Comparável Ligeiramente superior
Melhora funcional (NDI, VAS) Boa Boa a superior
Tempo cirúrgico Comparável Comparável
Ossificação heterotópica Não se aplica Possível (especialmente graus 3–4)
Indicação em degeneração avançada Sim Limitada
Indicação em mielopatia grave Sim Selecionada

Por que Pacientes Jovens se Beneficiam Mais?

A média de idade dos participantes nos grandes ensaios clínicos é de aproximadamente 45 anos — e este dado já diz muito sobre o perfil de paciente que mais se beneficia da artroplastia. Existem razões biomecânicas, fisiológicas e matemáticas para a preferência em pacientes jovens:

Perfil Ideal para Artroplastia Cervical

Paciente jovem (idealmente abaixo de 55 anos), com radiculopatia ou mielopatia leve a moderada por hérnia discal ou espondilose em 1 ou 2 níveis, boa qualidade óssea, sem degeneração facetária significativa e sem instabilidade. Nestas condições, a CDA oferece resultados equivalentes ou superiores à artrodese com menor taxa de reoperação a longo prazo.

Quando a Artrodese Ainda é a Escolha Correta?

A artroplastia não substitui a artrodese em todas as situações. Existem cenários clínicos em que a fusão segmentar é a opção mais segura e eficaz:

Decisão Individualizada

A escolha entre artrodese e artroplastia depende de uma avaliação detalhada de cada paciente: exames de imagem (RM e TC), grau de degeneração, perfil ósseo, nível de atividade e expectativas. Não existe resposta única. O objetivo é oferecer o melhor hresultado a longo prazo para aquele paciente específico.

O Tipo de Prótese Faz Diferená?

Sim. Uma meta-análise em rede de 2024, que analisou 2.932 pacientes operados com CDA de diferentes graus de restrição, mostrou que dispositivos semiconstrangidos e não constrangidos superam os constrangidos em proteção contra degeneração adjacente. Os dispositivos não constrangidos retêm significativamente mais amplitude de movimento, e os semiconstrangidos apresentam menor risco de reoperação no nível índice.

Na prática, isso significa que a escolha do implante não é trivial. Próteses com maior liberdade de movimento reproduzem melhor a cinemática natural do disco cervical e parecem conferir maior proteção ao longo do tempo — embora todos os tipos de CDA sejam superiores à artrodese em termos de proteção do segmento adjacente.

Conclusão

A artroplastia cervical total representa uma evolução genuína no tratamento cirúrgico da doença degenerativa cervical. A evidência acumulada em mais de 25 ensaios clínicos randomizados e dezenas de meta-análises é consistente: a CDA oferece descompressão equivalente à artrodese, com a vantagem adicional de preservar o movimento e reduzir significativamente o risco de doença de nível adjacente e de reoperação.

Para pacientes jovens, essa vantagem é multiplicada pelo horizonte temporal: cada ano a menos de degeneração acelerada nos segmentos vizinhos é um ano a mais de qualidade de vida sem nova cirurgia. A artroplastia cervical não é a escolha para todos — mas, nos casos indicados, é a escolha mais inteligente para quem ainda tem décadas pela frente.

Referências Bibliográficas (PubMed)

Baseado em artigos recuperados do PubMed. Todos os estudos com DOI verificado.

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  2. Grau A Toci GR, et al. The Incidence of Adjacent Segment Pathology After Cervical Disc Arthroplasty Compared with Anterior Cervical Discectomy and Fusion: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Clinical Trials. World Neurosurg. 2022;160:e537-e548. DOI: 10.1016/j.wneu.2022.01.072
  3. Grau A Quinto ES, et al. Ten-Year Outcomes of Cervical Disc Arthroplasty Versus Anterior Cervical Discectomy and Fusion: A Systematic Review With Meta-Analysis. Spine. 2024;49(7):463-469. DOI: 10.1097/BRS.0000000000004887
  4. Grau A Zavras AG, et al. Effect of device constraint: a comparative network meta-analysis of ACDF and cervical disc arthroplasty. Spine J. 2024;24(10):1858-1871. DOI: 10.1016/j.spinee.2024.05.016
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  6. Grau A Luo J, et al. Rate of Adjacent Segment Degeneration of Cervical Disc Arthroplasty Versus Fusion Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. World Neurosurg. 2018;113:225-231. DOI: 10.1016/j.wneu.2018.02.113
  7. Grau A Lanman TH, et al. Long-term clinical and radiographic outcomes of the Prestige LP artificial cervical disc replacement at 2 levels: results from a prospective randomized controlled clinical trial. J Neurosurg Spine. 2017;27(1):7-19. DOI: 10.3171/2016.11.SPINE16746
  8. Grau A Radcliff K, Coric D, Albert T. Five-year clinical results of cervical total disc replacement compared with anterior discectomy and fusion for treatment of 2-level symptomatic degenerative disc disease. J Neurosurg Spine. 2016;25(2):213-224. DOI: 10.3171/2015.12.SPINE15824

Dr. Felipe Barreto

Neurocirurgião especializado em cirurgia minimamente invasiva da coluna e cirurgia cervical. Atendimento em São Paulo.

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